Tentativas de capturar um tempo incerto

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Se o “fica em casa”, em Maputo, para uma larga maioria foi apenas um slogan vazio ou motivo para os pseudo-tele-jornalistas realizarem pseudo-reportagens-jornalísticas que se convertiam em memes para o gaudio dos tik tokers e afins. Para o jornalista, empreendedor e activista cultural, Elcídio Bila, este – privilégio de alguns – enclausuramento foi mote para retratar um tempo que só com o tempo perceberemos realmente o que significou: o da pandemia.
Michel Houellebecq, um dos escritores franceses contemporâneos mais aclamados foi dos que, como outros poucos, ousaram escrever artigos pessimistas (ou realistas?), naqueles dias cinzentos de 2020 e 2021. Não tinha a ilusão que esse momento histórico mudaria substancialmente o mundo.
Poderia ser uma hipérbole do francês. Porém as notícias que acedemos são ilustrados com homens armados, de Cabo Delgado a Donbas. Questões cruciais da humanidade (este conjunto de animais pretensiosos, parafraseando como Fernando Pessoa nos seus “desassossegou”) parecem inalteráveis. A fome de poder, sede de sangue não é apenas fruto de ficção. Somos incapazes de fazer da barbárie um capítulo remoto. O individualismo e preconceitos rudimentares permanecem vivos. O desrespeito pelo outro.
Não é, entretanto, sobre mudanças que Elcídio Bila nestas “CRÓNICAS DE EMERGÊNCIA”, se debruça. É um exercício de capturar um momento na expectativa da precisão de um fotógrafo ou vídeo maker e eternizá-lo de modo cristalino para que a memória colectiva não se esqueça do que se passou. É o jornalista que toma de empréstimo as ferramentas da literatura para dar luz a micro eventos corriqueiros que vão escrevendo o todo das nossas curtas existências (a vida).
Embora circunstanciais, os acontecimentos dos capítulos e episódios in(ter)dependentes o autor tinha uma preocupação com a perenidade destes escritos. O casal Maria e o Mário são pais de Wezzy e Wilma. Esta família é a protagonista da novela. É em torno dela que as pequenas estórias giram. É com ou a sua volta que as peripécias que dão vida ao livro se desenrolam. A novela acontece num bairro periférico de Maputo.
A permanência de Mário em casa, que não acontecia antes por causa do trabalho e outras razões da correria habitual pelo pão, o permite aceder a um universo ao qual nunca tinha estado exposto, obviamente. Como por exemplo o seu vizinho enciumado, no episódio “Vizinho de Emergência”.
Esta sucessão de eventos com esta família pode remeter, entre outros, ao livro “Marcovaldo”, do italiano Ítalo Calvino, publicado pela primeira vez em 1963. O Marcovaldo é um operário que vive numa cidade italiana com a sua família e vai tendo episódios fantásticos e pintados humor, ironia e certo sarcasmo como os de Maria, Mário e os dois filhos. “Crónicas de Emergência” é composto sob a esteira de um neo-realismo. A narrativa é tecida de poesia, numa escrita simples, não simplória, disponível a descodificação de um leitor iniciático.
Os textos foram sendo publicados na plataforma Mbenga Artes e Reflexões, e é já o segundo livro que é publicado nessas circunstâncias. O primeiro foi “O coração que veio de longe (ou O homem e o líquido)” de Pedro Pereira Lopes. O que muito nos honra e nos faz continuar a acreditar que podemos mudar o mundo.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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