Celebrar a mulher através da arte

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CCMA

Quando chega o mês de Abril, a mulher torna-se o centro de debate nos diversos domínios da sociedade mocambicana. Neste diapasão, sete mulheres artistas casaram técnicas, experiências, visões e vozes num único coro, à convite do Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA), para celebrar a mulher através de uma exposição visual. São elas Nelsa Guambe, Lica Sebastião, Huwana Rubi, Faira Beatriz, Aline Nobre, Nália Agostinho e Carina Capitine, que apesar de todas as diferenças, têm em comum a questão de procurar, com recurso as suas obras, instigar debater em torno de temas ligados à temática da mulher.
A mostra, intitulada “Nossa Vossa Voz”, transformou a galeria do CCMA num espaço cheio de cores e brilho, onde também se pode ouvir vozes femininas em pranto e júbilo a (re)clamar pela salvaguarda e garantia de direitos e oportunidades iguais para homens e mulheres artistas e não só. Quer discutir, ainda, problemas ligados ao género, tais como a subalternização da mulher, questões de violência e feminicídio, olhando para realidades urbanas e rurais, ao mesmo tempo em que exalta a beleza, o carisma e amor de mãe, típicos da mulher.
Refletir sobre violência de género através de telas
Em Dezembro do ano passado, a jovem artista plástica, Faira Beatriz viajou à Mecubúri, Nampula, sua terra de origem.
Na excursão turística, a jovem artista plástica Faira Beatriz, tomou conhecimento de que havia, na zona onde se alojou, uma jovem macua que vivia de braços com a violência doméstica, nas suas diversas formas.
O objectivo do deslocamento era conhecer a província, mas a artista decidiu, também, ouvir e conhecer a história da referida jovem, submetida a maus tratos e privação da liberdade de expressão pelo marido, sob o pretexto deste ter pago o dote logo após os ritos de iniciação. Das conversa, nasceram duas obras. Dois quadros intitulados “tornei-me Escrava do Meu Marido” e “Liberdade de Expressão”, expostas no “Nossa Vossa Voz”.
“Eu disse a ela, olha, eu vou retratar a tua história. Vou fazer acontecer e chamar o público para poder ver e reflectir através do teu caso e pensarem noutras mulheres na mesma situação”, recorda.
Não tendo meios de ajudar a jovem a libertar-se dos abusos do marido, Faira Beatriz optou por produzir e expôr obras de arte para, depois, com o valor da venda dos trabalhos, comprar sementes e canalizá-las à mulher cuja história inspirou a produção dos quadros.
“Eu não tenho como comprar algum produto para ajudar a ele, mas fiz quadros que vou vender e fazer a doação do valor, mas comprando sementes para ela produzir em casa”, conta.
Faira Beatriz é, ainda, uma nova cara nas artes nacionais. Tem participado de várias outras iniciativas artísticas e partilhou que se sente honrada pela oportunidade de expôr ao lado de mulheres de renome, tanto a nível interno e externo.
A mulher, agora, já consegue estar num nível avançado, apesar das contrariedades, diz, “Já estamos a ganhar poder e acredito que não só celebramos a mulher por ser o mês de abril.

Ainda é um desafio ser mulher nas artes
Huwana Rubi é uma artista plastica moçambicana já experimentada. Pinta, desenha e também faz poesia em telas, há mais de anos, dentro e fora do país.
No seu entender, é necessário que se discuta, com profundidade, a questão da igualdade do género, no panorama artístico nacional, em particular, como forma de criar um ambiente fértil para acolher mais mulheres artistas.
Rubí entede que seja notório que “as mulheres ainda são subjugadas nas artes”, sendo, por isso, essencial criar mais iniciativas no sentido de incentivá-las a fazer arte.
“A arte não tem a ver com a mão de quem vai pincelar, mas com a determinação e a questão criativa”, explica Huwana Rubi, a denunciar que, apesar do anteriormente exposto, “as mulheres ainda são subjugadas nas artes”.
Uma das duas obras com que Huwana Rubi participa em “Nossa Vossa Voz” é intitulada “Dois Horizontes”, uma tela à crílico onde a artista traz uma visão comparada do quotidiano das mulheres a residir na zona cimento e no subúrbio. Através da tela, a artista sugere a ideia de compreensão do papel que a mulher exerce na sociedade, independentemente da sua zona de origem ou residência.
A artista descreve a exposição como “um momento de partilha e comunhão”, pelo facto de congregar artistas de diferentes faixas etárias, proveniencias e concepções, para materializar um objectivo em comum, que é celebrar a mulher.

Há que estimular a mulher a fazer arte

Para Aline Nobre, muito além de debates em torno de temáticas sobre o espaço que é dado a este estrato social em todas as vertentes, há que estimular o surgimento de mais mulheres e movimentos artísticos em defesa da visibilidade deste género nas artes
“A verdade dos factos é que nós [mulheres] somos representadas em todo o tipo de arte, mas o que acontece é que não temos a mesma visibilidade como artistas. Mulheres que criam sobre mulheres e para mulheres”, defende. Para a artista, a questão transcende a exclusão, pois “nem temos um espaço na mesa, mas existimos, como artistas. Por que não dar oportunidades a artistas mulheres?”
Da forma como a sociedade está desenhada, continua, é muito difícil nós mulheres sermos consideradas artistas e vivermos disso. “Temos muitas obrigações e temos que sacrificar muitas coisa, como nossos confortos e paixões. Mas existimos”
Aline desemboca nas artes, onde faz telas, esculturas e artesanato, depois de uma experiência traumática. Tenta, por via disso, levar à “Nossa Vossa Voz”, bem como ao resto dos seus trabalhos, a reflexão sobre a temática do luto.
Não é exactamente sobre morte, explica, mas fui explorando outras formas pelas quais o luto pode existir.
“Defino o luto como qualquer coisa que não esteja pronta para perder, pode ser uma ideia, sonho, relacionamento, ou qualquer outra coisa”.
De acordo com Aline Nobre, é possível “possível celebrar o luto, pois acho que abre porta para algo bom. A cura.” Diz, a acrescentar que “até hoje, estamos a mulher celebrar por ocasião do luto.”

O círculo de mulheres artistas ainda é pequeno em Moçambique

A união das mulheres em ideias criativas é um dos caminhos que podem levar à requisitada paridade de género. Quem o diz é a artista plástica, Nalia Agostinho.
“É sempre um momento único, juntar-me a um momento de exposição com mulheres fortes, criativas e talentosas, para poder ver traços, cores e rostos de mulheres, feitas por mulheres”, afirmou. Para a artista, “Nossa Vossa Voz” representa uma tentativa de criação de laços entre mulheres artistas, com o intuito de dar mais visibilidade a este grupo.
“Mostra que, de certa forma, começa a existir união do universo feminino, dentro do mundo artístico, apesar de ser ainda um círculo pequeno em Moçambique”, defende.
Neste momento, diz, tem começado a existir mais espaço. “No entanto, ainda tem muito a ser feito e muitas barreiras a serem quabradas por nós, como mulheres artistas”, defende.

A mulher está envolvida em todos os sectores sociais

Ceramista e autodidata, Nelsa Guambe acredita que o sector artístico cultural moçambicano seja complexo, tanto para os homens quanto para as mulheres. Entretanto, a pensar na esteira das festividades da mullher, iniciadas no dia 1 de Março, estendo-se, para Moçambique, ao mês de Abril, a artista observa que a presença feminina nós diferentes áreas sociais no país é cada vez mais crescente.
“É difícil olhar para um sector apenas, quando falamos da mulher, porque abrange vários sectores”, comenta. Para Nelsa Guambe, deste modo, defende que as celebrações do mês da mulher correspondem a uma época de questionamento e passagem de testemunho da mulher emancipada à que anda busca pela emancipação.
“É bom, neste mês, ver várias exposições que são de mulheres, o que significa que há muita mulher a fazer arte”, afirma, a acrescentar que “as mulheres têm sede de se apresentar, provavelmente nós é que não sabemos onde elas estão, ou nós não sabemos onde elas estejam.”
Este mês, prossegue, há muitos trabalhos de e a para mulheres. “Eu vi que, olha, na Fernando Leite Couto, no CCMA, Núcleo D’Arte e outros locais, há trabalhos de mulheres. Espero que não seja só Março e Abril, mas algo constante”.

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Encontra no jornalismo um espaço fértil para alimentar o gosto de narrar factos e partilhar experiências do dia a dia. Estudante finalista pela ECA-UEM, vê na leitura e escrita ferramentas indispensáveis para contar hi(e)stórias, exteriorizar-se e conduzir o mundo pelo caminho da luz e da boa convivência entre pessoas. Também tem formação técnica em Jornalismo e Multimédia e colabora com a plataforma Mbenga desde 2019. Tem, ainda, textos publicados em diversos semanários nacionais.

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