Abua

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Obra de Matheus Sithole

A Ika disse “abua”, sua primeira palavra perceptível. A borboleta desabrocha no rosto do pai que caminha em direcção a paragem. A voz da sua primeira filha, com um ano e alguns meses, ecoa como se o poema do rap de Emicida, aquele som do Colors Show, a ode à “São Pixinguinha”, ficasse suspenso, silencioso no volume máximo. Os headphones silenciam-se.

“Abua”, ouve a melhor melodia do mundo: “abua”.

“Roc boys” de Jay Z, desperta-o para o sol das oito e picos, intenso, que dedicadamente incide-o na testa. O passo pesa o volume dos infinitos graus do areal da berma esquerda, que faz de conta é passeio da rua principal. Artisticamente distribuídos, milimetricamente situados, os buracos da rua orquestram a sinfonia dos pneus, amortecedores e sei lá mais o quê no embate distraído e ou apressado dos carros que passam.

Na linha paralela à estrada, do lado direito da berma em que se arrasta, já há movimentos nas bancas de emigrantes abastecidas de bolachas, pensos,coca-cola, ovos, sabão, feijão, queijo, leite fresco, água, vinagre, lâmpadas, bobinas de mosquito, frango, perú, chocolate, bonbon’s, redbul, monster e outras cenas. Aquilo, na verdade, são mercearias, insistia certa vez, numa conversa, um senhor a contestar essa designação de banca. Mas não, isto não tem nada a ver com o pai da Ika. O Mpfumo o cumprimenta, sorridente, bem-disposto, com uma garrafa de água mineral na mão e um lenço encaixado no ombro que sustenta braços papudos à mostra na camisa que perdeu as mangas numa operação caseira de gostos e padrões estéticos questionáveis. Mas tudo isso é relativo. O Mpfumo, então, é o tipo da zona que há muito abriu o olho, já tem um car wash, um salão cabeleireiro e há rumores que a bottle store da esquina e a farmácia da última rua também são dele. Andaram juntos na escola até a quarta classe, quando o Mpfumo passou a ser aquele colega que após a chamada do seu nome, imperava um silêncio absoluto [não tão silêncio assim porque se ouvia os gritos dos outros tchecos de fora da sala, mas ali ninguém falava nada]. Um tempo depois esse era o momento de risos escondidos.

“abua”.

De mochila nas costas, camisa azul oceano, marcada pelo traço amarelado, desenhado pelo suor que o percorrem o corpo todo, o pai da Ika vai ao job. Admite que deveria ter vestido um tecido mais leve. As calças jean’s são um martírio por baixo de 38• graus Celsius. Sente o sol na sola do seu único par de sapatos. Um Auris azul passa por ele, já a chegar à paragem, a distribuir os versos de “Menina do bairro”, de Assa Matusse. “Oh, sou dos becos”, foi o verso mais despejado por aquele veículo que já vai longe, a dobrar a esquina.

O pai da Ika limpa a testa, a formular a utopia de uma cadeira para se sentar no chapa a ler Marizza, de Mélio Tinga. Pela hora, sabe que só um milagre. Noutro dia, a voltar do office, cansado, a tentar ajustar-se, o cobrador, um tipo de gestos grosseiros, com riso de escárnio e olhar de ordem, foi perentório: aqui não é para ficar confortável. Ainda teve outro, que recebeu uma cotovelada doutro jovem que justificou-se dizendo: “você estás muito a vontade, aqui. É chapa isto. Apanha Txopela se tens dinheiro”. “Afaste o teu cotovelo”, ouviu de um lado, doutro “tua pasta está a me aleijar”, nas costas alguém reclama que ele está a apertá-lo, no chão, uma moça se queixa: estás a me pisar. E o cobrador ordena: entra mais, tem espaço ali no meio. Em ordens diferenciadas os dias se repetem. Hoje também foi como o outro e noutro.
Não, não foi: “abua”, a voz da menina se repete. Abafa “É tudo para ontem” de Emicida com a participação de Gilberto Gil, que reproduz nos headphones.

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