TP50 envia carta ao Olimpo, novo endereço do Hortêncio Langa

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Hortêncio Langa

O que escrever para um poeta, um escritor? Que quadro pintar para um pintor? O que cantar para um exímio compositor e intérprete, dos maiores de Moçambique? TP50 escrevera uma carta e a quer enviar ao Hortêncio Langa.
Em dois concertos nos dias 01 e 02 de Abril na sala grande do Centro Cultural Franco-Moçambicano, o espectáculo será para duas celebrações: a vida do autor de “Maputo”, uma ode a esta urbe; e os 15 anos de existência formal.
O que escrever ou dedicar a um amigo que na atmosfera cinzenta da guerra dos 16 anos, as recorrentes noticias de ataques terroristas mortíferos, os médicos exaustos, se reunia aos outros no final dos anos 70 se prolongando até 80, para cantar, dizer poemas, fazer teatro?
Entre os convivas que se reuniam, estava Hortêncio Langa, Joel Libombo, António Prista, a cantarolar a bossa nova, mpb entre outros acordes que tanto gostavam, e a sonhar com um mundo melhor, aqueles encontros eram uma espécie de oásis, na crença de que a arte pode ser o balsamo das dores mundanas.
Na manhã da segunda-feira, 12 de Abril de 2021, a notícia correu, Langa não resistiu a COVID-19. Vimos e ouvimos relatos dos seus amigos desolados. E poucas semanas depois, no cair da noite de 14 de Maio, na Fundação Fernando Leite Couto, lançavam o que virá a ser o documentário: Hortêncio Langa o Poeta Dos Acordes. Na pelicula amigos e colegas partilhavam a humanidade do artista. E fazendo jus a cidade que viveu, amou e poetizou, os amigos iniciaram uma petição para atribuição do nome de Hortêncio a uma das avenidas de Maputo.
Mas também já o tinham homenageado em vida, a 8 e 9 de Maio de 2015, no Centro Cultural Franco-Moçambicano. Foram dois dias de música e, como sempre faz o TP50, os seus amigos de quem estamos a falar nesta peça, usaram-no como mote para olhar para país e as suas circunstâncias.
Desta vez, os amigos vão dirigir-lhe uma missiva com as músicas e as palavras que esperavam o ouvir cantar na festa de 15 anos do TP50 nos palcos, como, aliás foi em Setembro de 2017, na celebração de uma década. “De forma geral, este concerto é uma oportunidade de recordar as coisas boas da nossa convivência, as violadas de há mais de 40 anos, partilhar essas memórias com ele e com o público”, disse Maria Clotilde, produtora do megagrupo, em entrevista ao “Mbenga” pelo Whatsapp.
Hortêncio Langa, prossegue Maria Clotilde, foi um dos grandes responsáveis para que TP50 subisse aos palcos, depois da festa de aniversário dos 50 anos de António Prista, que tinha reunido toda a malta dos anos 70/80. “Ele é que sugeriu que o espectáculo fosse para uma sala, foi ao Franco dar a proposta”, acrescentou, assumindo que “ele faz falta aqui”.
“TP50 15 ANOS: CARTA A HORTÊNCIO LANGA”, conforme o comunicado de imprensa que o “Mbenga” recebeu, “é um título dos concertos que visam celebrar a existência do grupo evocando a vida e obra de Hortêncio Langa, fundador do TP50 e músico de referência nacional”, além do facto de ambas histórias, em certos aspectos se confundirem.
O músico, que igualmente foi docente na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane, construiu uma carreira, descreve o documento que estamos a citar, “cheia de êxitos teve alcance internacional e que não se limitou a cantar, tocar e compor canções, mas notabilizou-se como escritor e artista plástico”.
Com efeito, neste 15º aniversário do TP50 cujo portfolio integra criação e apresentação de 41 espetáculos temáticos, onde se misturam música, dança, teatro, vídeo, fotografia e poesia, com participação de cerca de 271 artistas, produtores e técnicos vindos de diferentes países do globo. O grupo criou um Portal da Música Moçambicana, uma coleção de Songbook, concebeu e realizou espetáculos e músicas educativas infantis.
Nesta década e meia de actividades formais o TP50 gravou um DVD,4 CDs e criou 20 músicas próprias além de vários clips sempre de conteúdo social.
Para já, esta “carta” será composta por, como habitual vídeo, dança, teatro, fotografia, que transbordam valores humanistas, diferença de credos, cores e origens.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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