Memória cultural em “Aqui há ópera?” de Álvaro de Carmo Vaz

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Capa do livro

“Quando Zito descobriu os livros nos armários, sentiu-se Ali-babá na caverna do tesouro dos quarenta ladrões”, (pag.16) lê-se no livro “Aqui há ópera? Histórias daqui e dali” de Álvaro Carmo Vaz. Este excerto conta a estórias da infância do protagonista dos contos que compõem esta obra literária, que é uma edição de autor. Mas no essencial, Zito que crescido passa a Pedro, é um pretexto para trazer a luz uma visão sobre História de Moçambique. Está ali impressa a percepção de quem sempre esteve numa posição de privilégio: ao chegar a actual Maputo, vindo de Goa, entre 61 e 63 do século XX, mora no Alto Maé, faz-se engenheiro, torna-se docente universitário, faz o doutoramento em Londres e segue.

Encontramos a citação acima ainda no primeiro conto da compilação de memórias (não declaradas/assumidas), intitulado “A velha casa, as avós, a cidade”, e as menções seguintes aos escritores Jules Verne e Emílio Salgari são um prenuncio de várias referências de obras de arte (produtos culturais) no decurso do texto (o livro).

O autor nos recorda que há músicas que ouvimos hoje e despertam memórias; há filmes com cheiros de um tempo passado; há livros que marcam um momento singular. Esses arquivos configuram a exposição da galeria que compõe a identidade de um indivíduo. Estes elementos, parafraseando Achille Mbembe, são uma parte significativa da “fábrica dos sujeitos”.

O passado, observa Francisco Noa, por qualquer sortilégio, nem sempre de fácil interpretação e que só a memória lhe dá existência, surge-nos muitas vezes como lugar mais ou menos ordenado e fixado no tempo. Aleida e Jan Assmann, casal alemão que continua – em certa medida – o conceito do sociólogo francês Maurice Halbwachs, conceptualiza que quando esta ordenação do passado é feita na esteira de um conjunto de obras de arte é uma espécie de memória cultural.

Na edição 8 da Revista Electra, dedicada a memória, António Guerreiro, editor da respectiva publicação, cronista e crítico literário do jornal Público, sumarizou percepções de intelectuais de diferentes tempos e contextos sobre esta relação que temos com o passado e a forma como o interpretamos, significamos e damos sentido ao que (ou terá sido?) foi.

“Como um património de conhecimento e de cultura, também artístico e literário, que ganha corpo em obras de ficção, no teatro, no cinema, na escultura, na pintura, na arquitetura. Esse património é objectivado em dispositivos da memória ou em formas ou práticas simbólicas que fundam a identidade de um grupo” (pag. 35), sintetiza António Guerreiro o pensamento do casal alemão.

Nestes dias do efêmero, em que a nossa atenção está calculada para 30 segundos no Storie entre outros mecanismos e ferramentas dos smartphones, como as memórias do Facebook, reflectir sobre estas questões é urgente. Numa palestra recente, na Fundação Fernando Leite Couto, subordinada ao tema “Afinal, o que (não) queremos lembrar de José Craveirinha?”, Francisco Noa mostrava-se igualmente preocupado com esta questão do oposto a memória, o esquecimento. O esquecimento, aliás tem norteado os trabalhos de outros autores moçambicanos como Mia Couto (“O mapeador de ausências” e a trilogia “As Areias do Imperador”), João Paulo Borges Coelho (“O olho de Hertzog” e “Museu da Revolução”) e Ungulani Ba Ka Khosa (Choriro e Sobreviventes da noite). Apenas alguns exemplos.

Álvaro Carmo Vaz, engenheiro que reformado passou a operar máquinas literárias já conta dois modelos nas prateleiras das livrarias: “O rapaz tranquilo” (romance) e “Aqui há opera?” (Contos). Ambas obras são compostas por descrições minuciosas e evidenciam uma particular paciência para o detalhe.

Embora de ficção, há um trabalho de pesquisa notável quando, por exemplo, os discursos de Samora Machel, no “Aqui há ópera?” (Pag. )são excertos que foi buscar de discursos proferidos entre 1976 e 1980.
Dando passos mais para trás em relação ao romance “Um rapaz tranquilo” que arranca em 1966 com o protagonista, Pedro já instalado na actual Maputo, neste segundo, o livro começa com a feliz infância interrompida em Pangim, pequena cidade de Goa, na Índia, na época da tomada do território da posse dos portugueses por parte daquele país asiático, em 1961.

Se a arte não dá respostas, esta obra comete o pecado de dar algumas nas notas, mas se a memória é o objecto se restabelece o equilíbrio nestes contos que fragmentam um percurso autobiográfico. Embora o autor negue tratar-se de uma autobiografia, a minha afirmação se sustenta no facto de em muitos aspectos dos textos coincidir a narrativa com o seu percurso de vida como, por exemplo, o facto do Pedro ser engenheiro com doutoramento feito em Londres, a semelhança do escritor.

Os capítulos “Dois amigos falam de cinema” (pag. 149), “Mon Uncle” – homenagem ao realizador francês Jacques Tati – (pag. 39), “Lost in Translation” – emprestado ao filme com o mesmo nome da realizadora Sofia Coppola – (pag. 241), são algumas referências do mosaico de referências a obras de arte, sendo, neste caso específico, o cinema. Há, no livro, outras flagrantes referências a músicas, personagens de romances e contos clássicos – marca ainda mais presente no “Rapaz tranquilo”. Por exemplo, no texto “A outra margem, ao longe” lê-se: “Tinham tinham vindo também dos padres, pastores e imãs para invocar as bênçãos dos vários deuses, não fosse algum deles sentir-se menosprezado e vingar-se, qual a Fada Má da Bela Adormecida (pag. 191)” e mais adiante invoca-se Bucha e Estica (Stan & Ollie) (pag.197) que foi uma comédia de sucesso nos anos 20/40 do século passado.

Pela verosimilhança com a realidade e emprego de factos reais, texturas e aparências das coisas, estamos diante de uma obra realista que, obviamente, tem a sua dose de fantasia e invenção. É um livro de leitura fácil, que prende pelas estórias e algum humor circunstancial.

Assim como já tinha afirmado no artigo sobre o primeiro livro, “Rapaz tranquilo”, na esteira do debate sobre o lugar da fala, temos nesta obra a percepção de quem cresce no meio urbano da actual Maputo e que interpreta o mundo a partir dessa experiência.

Leia o artigo sobre o livro anterior deste autor:

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