É preciso não desistir – Mia Couto

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Mia Couto. Fotografia de Júlio Marcos.

O Dia Mundial do Escritor é celebrado a 13 de Outubro de cada ano. Na data, escritores e leitores de várias geografias se juntam para reflectir em torno do papel social do livro e da literatura. Nessa mesma data, este ano, Mia Couto trouxe ao mundo mais uma obra literária.

Trata-se d’“O caçador de elefantes invisíveis”, um livro que reúne uma série crónicas, transformadas em contos, que foram publicadas na revista portuguesa “Visão”, durante dois anos em colaboração com o semanário.

Ao lançar uma obra em pleno Dia Mundial do Escritor, Mia Couto quis transmitir o espírito de resiliência face aos desafios impostos aos escritores, sobretudo nos tempos actuais. “Eu acho que é preciso não desistir. É muito fácil desistir de publicar, num mundo em que o livro é difícil de alcançar. Digamos, não só de comprar, ainda mais de publicar”, disse.

Para o autor, é necessário que os jovens escrevam motivados pelo gosto e comprometimento com a literatura. “Têm que ser persistentes, porque, provavelmente, o livro demore a chegar. Eu fiz o meu primeiro livro quando eu tinha trinta e tal anos, já não era jovem”, disse a acrescentar que é preciso que os jovens apostem em escrever para si próprios, acima de tudo.

Contar histórias tendo como base o elemento humano, os sentimentos e experiências do quotidiano, é uma das grandes capacidades de Mia Couto.

 O escritor afirma que “todas as pessoas têm que ter crença na capacidade de produzir histórias, fazer da sua vida uma história, de serem visíveis, personagens da sua própria vida e serem autores”.

De acordo com Mia, a literatura, tal como tantas outras áreas, tem vivido momentos conturbados. Apesar disso, o escritor observa que há muita gente a escrever, bem como a publicar, e a internet veio facilitar o processo.

“Há necessidade, sim, de mais editoras, de se colocar o livro mais barato e se abrir mais bibliotecas e espaços para o debate literário, mas não acredito que seja uma coisa que se possa pedir ao Estado ou Governo. Nós próprios temos que fazer”, sublinhou.

O autor destaca que a função do escritor, enquanto parte integrante da sociedade, é de fabricar, por via da imaginação, o desejo de resposta às diversas situações e não, necessariamente, trazer fórmulas para resolver crises.

“A literatura é uma maneira de encontrarmos, além da realidade, qualquer outra luz, qualquer outra esperança”, disse Mia Couto, para quem “nós, os escritores, não damos um guião para qualquer movimento ou resposta prática”

Fazemos, sim, prossegue, um exercício de mostrar que é possível sonhar e pensar com um outro mundo, uma outra felicidade e humanidade.

Mia Couto é, actualmente, escritor e biólogo, mas, antes, foi jornalista e professor. “Raíz do Orvalho” (1983) é a sua obra de estreia. É um livro de poesia, no qual Mia demostra a sua relação muito íntima com a tradição e memória cultural africana.

É premiado em várias partes do mundo, com destaque para o Prémio Camões (2013) e o prémio Albert Bernard, este ano, pela trilogia As areias do Imperador.

As suas obras se encontram em mais de 22 países, com tradução para mais de 30 idiomas, desde o alemão, francês, castelhano, catalão, inglês, italiano, entre outros.

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