Mia Couto prossegue o seu discurso sobre a esperança no livro “O caçador de elefantes invisíveis”

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Elton Pila, Mia Couto e José dos Remédios. Fotografias de Júlio Marcos.

A solidão, a esperança e a resignação face ao isolamento forçado pela Covid-19 são alguns dos sentimentos trazidos por Mia Couto, em “O caçador de elefantes invisíveis”, sua mais recente obra, lançada ontem, na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo.

O livro é composto por 29 contos,  selecionados e adaptados a partir de crónicas que escritor publicou regularmente, durante os últimos dois anos, na revista semanal portuguesa “Visão”.

Nesta colectânea, Mia Couto traz a luz questões da actualidade nacional, como a guerra, a gestão da pandemia, o luto e a morte, procurando trazer relatos humanizados sobre histórias de vida de “pessoas que são vistas como não gente”.

“Não é possível ficar sem sofrer perante esta guerra, esta outra guerra contra o vírus. A literatura é uma forma de encontrarmos, para além dessa realidade, qualquer outra luz e qualquer outra esperança”, disse o escritor moçambicano mais traduzido.

Mia Couto que já assinou cerca de 30 obras literárias, distribuídas em vários géneros, desde a poesia, os ensaios, as crónicas, romances e contos infantis, assume que é no conto que encontra a sua plenitude pela possibilidade de num curto espaço reflectir ou suigerir várias possibilidades de leitura da realidade.

“O conto ‘O LADRÃO GENTIL’, incialmente publicado no ‘New York Times’ e que, provavelmente, teve maior difusão, foi um texto que fiz logo no princípio desta pandemia. É sobre uma situação em que alguém é confrontado com a importância de usar a máscara e responde de uma forma muito ingénua”, explicou.

Com o título da obra, “O caçador de elefantes invisíveis”, extraído de um dos contos do livro, o autor propõe uma metáfora. Faz um “ensaio” sobre possíveis saídas da situação de cegueira face a realidade, marcada por  situações de injustiças sociais. É, de resto, um exercício muito frequente nos escritos de Mia Couto. 

“Moçambique é essa grande fábrica de pequenas histórias de gente que não quer ficar na visibilidade. Gente que quer ser gente. Gente que, todos os dias, para ir para casa, tem que se apertar no My love, ou no chapa, e que corre o risco de não ter outro destino, senão essa invisibilidade”, esclareceu, tendo acrescentado que “as histórias são feitas para render espaço de invisibilidade às pessoas”.

A captura da realidade em flagrante

Elton Pila e José dos Remédios, dois jovens jornalistas e escritores moçambicanos, partilharam as suas leituras d’”O caçador de elefantes invisíveis”, na cerimónia de lançamento. Ambos subiram ao palco da Fundação Fernando Leite Couto, para uma conversa que foi, ao mesmo tempo, a apresentação do livro.

Foi um encontro informal, no qual não faltou descontração e interação com o público e, também, com o escritor. Elton Pila e José dos Remédios destacaram o papel de Mia Couto na literatura moçambicana (e não só), tendo em conta a vertente técnica e, acima de tudo, o compromisso com a arte.

Os jornalistas consideram a obra ora lançada um trabalho através do qual o escritor moçambicano mais cotado para o Nobel de Literatura captura a realidade em flagrante, pois retrata um presente que transpõe qualquer tipo de fronteiras.

“Estamos a falar da pandemia, da situação de Cabo Delgado, das marchas de destruição de estátuas que se acredita terem servido a um determinado momento que não é o que estamos a viver. Há muito deste presente que até podemos tocar, no livro”, explicou Elton Pila.

A literatura permite isto, acrescenta, um povo de novos vôos, novos campos, histórias e reivenções, sobretudo, porque, talvez, a ideia não seja, de todo, retratar a realidade, mas quantas mais realidades podemos construir a partir da realidade vivenciada.

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