Foge-me entre os dedos

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Leonel Matusse Jr.

Este exercício de escrever é um tipo peculiar de pôr-se a nu. Um acto voluntário de se despir e percorrer a avenida. As cicatrizes ficam a mostra. Escrever é como o gesto de ter um smartphone onde depositamos as nossas vidas e não sabemos ao certo para onde o aparelho nos leva. Escrever é desproteger-se.

A coisa lixada, entretanto, é que o escritor nunca sabe quem são os seus leitores. Se bem que tudo só tem validade para quem, pelo menos, tenha um leitor. Um que seja.

No essencial, quem escreve sai de casa nessa ilusória crença de que alguém terá lido o último texto que publicou. Sobretudo quando se escreve sobre nada, como é o caso deste que estou a redigir, sentado no chapa a ouvir muitas estórias que poderiam caber numa crónica, num conto ou dar corpo a um romance. O poema é outra conversa. Ham, também poderia dar reportagens sobre como a malta vive nas periferias da Town.

Por exemplo, duas senhoras, nas minhas costas, suponho que empregadas domésticas, indignam-se pelo facto da patroa de uma delas ter descoberto as cebolas que deitou, organizadamente, no caixote de lixo para depois levar.

No meu lado direito o motorista queixa-se do combustível e da hora que acorda. Do esquerdo, o condutor de outro chapa, entretanto avariado, e no caso, na boleia, queixa-se do mesmo e concorda com tudo que o condutor diz. O cobrador, insiste com os passageiros recém entrados, que, caso entrem mais fundo, – ali no meio, para trás, no corredor – poderão permitir que outros entrem. A coluna reproduz Justin Bieber. É tudo prosável. Mas não me interessa. Não me estimula. Embora queira escrever. Do lado de fora, numa paragem, um casal adolescente, abraçasse apaixonadamente, na flor do encanto. A frente, um moço vende lulas que jura serem frescas, suponho. Não lhe ouvi, o chapa não parou. Segue para dar distância aos que vem atrás. Trava bruscamente para não colidir com um camião que repentinamente entra para a estrada.
Me ocorre Orwell, Na Pior em Londres e em Paris. As desgraças de um inglês em plena França na companhia de um Dimitri russo, cheio de lábia. Que depois de uma refeição reacende todas as esperanças sepultadas naquele cemitério, ali na avenida da desgraça, esquina com a pobreza, onde a penúria se prostitui a troco de nada, invejando a victoria que se vangloria do rico lhe ter levado para esposa. Tal qual o Greg da tenda que não obstante, ainda se declara para a angel.
Escrevo tranquilamente, ninguém vai ler, como ninguém leu os outros. Gostava de comentar com o Pila que o Orwell é um tipo que não é de frases poéticas, bonitas, apenas um exímio reprodutor das circunstâncias.
No livro Na pior em Paris e em Londres, Orwell desfila ou persegue (não sei) a pena hábil a descrever a pobreza e torná-la universal. Parece que todos pobres do mundo são vítimas das mesmas peripécias.

Paragem, cobrador.

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