“Outros”, uma performance fotográfica

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Fotografia de Júlio Marcos

“Outros”, primeira exposição de fotografia individual de Douglas Conzo, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo, é uma performance criada a partir da tradição Karingana wa Karingana e outros mitos que compõem o folclore moçambicano.

Ao entrar para a galeria, a esquerda, um vídeo curto inicia a experiência, que teve a curadoria de João Roxo, revelando a outra arte de Douglas Conzo, o cinema. No interior da sala, com um trabalho de luz diferente do habitual, estão as obras.

“Esta sala, por si só, tem muita luz”, clarificou o curador, a explicar que “logo a partida, senti que quebrava um bocado a ideia de intimidade que eu queria passar, porque a interação que tens com cada fotografia é suposto que seja um momento íntimo e privado”.

Dai, prosseguiu, a decisão de focar nas fotografias, tentando escurecer mais a sala. O que dá particular realce as fotografias que em certos aspectos, como a especulação do passado, remete ao movimento estético, social e cultural do Afrofuturismo – não na perspectiva de ficção científica.

A opção por registos encenados, que configuram esta performance com uma queda para o realismo mágico, justifica-se com o facto de Douglas ser, como disse o fotógrafo, “muito ligado à ficção”.

Partindo da tradição oral, explicou, dos contos, cânticos e provérbios contados pelos seus avós, que os classifica como guardiões da nossa herança cultural, “tentei, com a ferramenta que tenho, que é a fotografia, contar novas histórias e criar novos seres e mostrar esses novos mundos”.

Tendo captado estórias folclóricas, contos populares, cujos enredos se desenrolam em lugares isolados do lufa-lufa urbano, nas zonas rurais, campestres ou desérticas, Conzo usou esse universo para encenar as fotografias expostas.  

A perspectiva ou interpretação do fotografo sobre o material que compõe “Outros” aponta para a possibilidade de explorar “vários mundos, novos personagens, ideologias”, esclareceu. E a opção por inventar personagens e cenários, deve-se ao facto de trabalhar a “liberdade de criar coisas novas [a fugir] do que está padronizado”.

“Mbenga”: As fotografias “Moya”, em que tens o corpo nu de uma mulher e o rosto coberto por uma máscara chama atenção por várias razões, como, por exemplo a representação da mulher nas artes visuais e a resinificação das máscaras. Qual é a provocação que pretendes fazer?

Douglas Conzo: Toda esta exposição tem uma linha narrativa. A fotografia de que falas, “Moya”, que significa vento, neste mundo criado dos outros, o vento não tem cara. Se fores a ver, tem um movimento por detrás dela. E não só, as máscaras têm, com elas, um significado muito forte, dependendo de cada cultura e localização geográfica. Por exemplo, as máscaras Cicopi muitas vezes eram usadas para enaltecer a mulher. A mulher, ali, está nua, mas não no sentido de reduzir o seu valor, mas de mostrar o seu valor. É mais nessa linhagem.

Fotografia de Júlio Marcos

Nos trabalhos que chamas de “Sonhos”, vejo uma que me parece sonho enquanto uma experiência agradável e outra que está mais para um pesadelo...

É isso. Temos vários tipos de sonhos.  Para esta fotografia, a minha inspiração foi a mitologia grega, em Morfeu, o deus dos sonhos, que teve vários filhos. Entre eles, o pesadelo e sonhos bons. Neste projecto só tentei ilustrar estes dois.

Fotografia de Júlio Marcos

Christopher Born, produtor, sound designer e engenheiro de áudio, concebeu a atmosfera sonora que alimenta a sala, a acompanhar a exposição. As colunas libertam texturas, gravações de vozes destorcidas, entre outros que pretendem transmitir o som que se ouve no mundo dos personagens das fotografias de Conzo.

“Estamos a falar de uma invenção baseada em culturas diversas africanas, subsaarianas, misturadas com mitologia e sonhos”, situou Born, a explicar a abordagem que o conduziu na composição daquelas peças sonoras.

O processo de produção passou por uma busca nos arquivos, YouTube a procura de músicas gravadas, até com celulares, do norte de Moçambique, áudios de galinhas e morcegos. A partir do material encontrado, o passo seguinte foi “brincar com esses ritmos para tirar um pouco do tempo”.

A ideia, continuou o norte-americano residente em Maputo há vários anos, foi pegar em ideias musicais que foram gravadas e mexer até elas ficarem como fossem um sonho ou uma tradição imaginada. “Tipo pegar numa cena que tem elementos tradicionais reconhecíveis para uma pessoa de cá, mas que não são concretamente de um sítio ou de um tempo”, esclareceu.

A exposição “OUTROS” integra a 2ª edição do Festival Gala Gala, evento que decorre em Moçambique de 13 a 19 de setembro, e reúne 18 eventos organizados por oito Centros Culturais baseados na cidade de Maputo e também a Embaixada da Espanha, numa programação conjunta que preenche os finais de tarde de toda a semana.

Este projecto do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, estará patente até dia 22 de outubro, de segunda a sábado, entre as 10h00 e as 17h00.

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