O longo parto do Museu Nacional de Arte

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Semanalmente, através do programa Conversa ao meio dia, produzido pela Plataforma Mbenga Artes e Reflexões e transmitida pela Rádio Cidade, contamos alguns episódios da História das Artes Plásticas moçambicanas, na rubrica Restauro.

Concebemos este espaço no nosso portal para a partilha, em forma escrita, do conteúdo breve, transmitido na rubrica supracitada.

Em 1938, dois anos após a criação do Núcleo de Arte (1936), alguns sectores de Maputo (então cidade Lourenço Marques) mobilizaram-se no sentido de criar-se a Galeria de Artes e História da Colónia de Moçambique. Mas da vontade para a concretização deste projecto, a distância é de décadas.

Muito provavelmente membros da administração colonial para equilibrar com o Núcleo, que era um espaço livre que com poucas probabilidades responderia aos interesses do regime, o melhor resultado que se conseguiu foi a criação de uma colecção de arte na então Câmara Municipal.

A coleção, conforme António Sopa no artigo As Artes Visuais em Moçambique – Um percurso de cem anos, compreendia dois seguimentos compostos por uma arte “oficial”, na qual estavam integrados os retratos dos antigos presidentes municipais e militares encomendas a artistas portugueses.

Outra parte da coleção municipal, prossegue o historiador, pretendia responder a produção artística local – numa altura em que os artistas moçambicanos aqui nascidos ainda estavam na sombra. Para tal adquiriram as obras nos ateliers desses artistas, residentes na urbe.

À semelhança do que acontece nos dias que correm em que alguns artistas e outros intervenientes do Sistema de Artes, questionavam os critérios para aquisição de obras de arte por considerem dúbia a selecção.

De acordo com Sopa, não obstante, aquela era a única coleção pública existente quando o país se tornou independente, a 25 de Junho de 1975.

No início da década 60, outra corrente juntou-se para a criação duma galaria de arte. A iniciativa que, escreve Sopa, foi apresentado à imprensa, era da autoria de Pancho Miranda Guedes, arquiteto e guia de Malangatana, que igualmente teria disponibilizado dinheiro para tal empreitada. Enquanto o projecto não saia do papel em Maputo (então Lourenço Marques), na cidade da Beira, em 1967 inaugurava-se o Auditório-Galeria de arte, que respondia, seguindo Sopa, aos mesmos objetivos.

Por força de Malangatana, José Júlio, Eugénio Lemos entre outros entusiastas – alguns dos quais lideraram a criação do Museu de Arte Popular no Moçambique independente, que compreendia uma galeria de artesanato e um museu de arte -, em 1989 abriu ao público o Museu Nacional de Arte, em Maputo.

O historiador António Sopa afirma que a instituição resultou de várias discussões, entre vários intervenientes, que tinham como objecto a colecção e os artistas representativos de um país conduzido por ideais socialistas, uma República Popular.

A exposição com que abriu o Museu Nacional de arte, conta Alda Costa no livro Artes e Artistas em Moçambique Diferentes Gerações e Modernidades, suscitou debate sobre os artistas que deviam constar nela.

As posições antagónicas – com o país mergulhado numa guerra civil, em parte justificada como ideológica -, prossegue a historiadora, reflectiam as percepções, nalguns casos, opostas sobre a modernidade, arte moçambicana e os artistas moçambicanos.

Desde a abertura do Museu Nacional de Arte, apesar de contar com poucos recursos humanos e especializados, orçamento limitado, no início organizou várias exposições e alguns projectos de carácter artístico e cultural.

Esta instituição, que conheceu fases de vitalidade, confunde-se com um elefante branco estacionado na cidade pela invisibilidade de que é vítima. Alda Costa olha para essa questão como uma das consequências da falta de profissionais qualificados, entre outras questões.

Outra fragilidade do Museu é, apesar do estatuto definir que parte da receita para aquisição de obras de arte venham do Estado, tal não tem vindo a acontecer, condicionando o crescimento da colecção. Alguns artistas doam as suas obras para o acervo do Museu.

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