7 pétalas de Abril

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Escrito por Celso Muianga

Em memória do jornalista Albino Moisés que me falou pela 1.ª vez da maior capulana de Moz!

Virou-se para mim com um olhar fulminante, até parecia perdidamente apaixonada. Pensei que ela me fosse dar mais uma daquelas suas lições, demoradas e chatas, apesar de apreciar-lhe o discurso. Falava como se estivesse a cantar. Mas quando ajeitou os óculos pela segunda vez, a minha avó, não sei como soltou um palavreado breve e vigoroso:

– Isto é absurdante.

– Vovó??? – atirei atónito!

– Não é possível que eu não esteja a sonhar, com esta minha idade, já a viver a prestações, meu neto!

– Mas vovó não está fora do prazo…

– Liga o rádio do teu chará, meu netinho.

Tratei de evacuar o ruído que vinha da televisão. Mas antes fui vi-me obrigado a correr e atravessar  o quintal. E instantes depois regressei ao lugar de partida, para de novo juntar-me à minha querida avó. Ali, debaixo da mafurreira, a minha avozinha desfrutava da sombra do ar condicionado natural como ela apelidava aquele lugar. Um copo estava deitado sobre um pedaço de esteira. Ela nem se deu conta das gotas de aguardente que o meu avô deitara naquele chão, ao longos destes  anos.

A Rádio Nacional de Moçambique estava em cadeia nacional com todos emissores provinciais, com a maioria das rádios comunitárias que aderiram às celebrações. Esta emissão especial  juntava a Televisão Nacional, o canal da TV Surdo e os canais de Professores e Médicos.

– A mulher moçambicana está em festa e, antes de mais, vamos brindar e reiterar o desejo de um feliz 7 de Abril para todas mulheres de Moçambique. Tenho sinal para entrar em linha com a nossa colega na cidade da Beira. Diga-nos, Anabela, como é o pulsar das cerimónias centrais que vão ter lugar aí nesse ponto do país?

*

-Alô, alô Anabela. Como vão as modas aí no Chiveve?

-Olá, bom dia Glória. Falo-vos a partir do bairro da Munhava, onde daqui a pouco vai decorrer a cerimónia central deste Dia Nacional da Mulher. Tenho indicação de que a delegação oficial teve um embaraço no trânsito, à saída do aeroporto. Devolvo a palavra aos estúdios centrais, hoje em Quelimane. Voltarei assim que se justicar, Glória!

– Obrigada, Anabela. Tenho indicação de que a Rosa está em linha a partir do Songo. Venha daí, Rosa. O  perfume é teu nesta nossa emissão. Estamos em festa hoje!

-Viva, Glória. Respondo de Songo. Tenho comigo uma senhora que está a reagir pode aproximar-se do microfone, dona!

-Cuidado. Muito cuidado com o frio daqui do Songo. Tem mania de ficar muito frio. Muito muito de noite. Isso de dizer que ela não sente frio porque corre muito não vai prestar. Melhor vestirem essa Menina de Ouro para não ficar entussiada….

-Obrigada pelos conselhos, mamã!. Glória são estes os primeiros sinais assim que foi descerrada a capulana que cobria a nova estátua de 2.5 metros de altura da nossa campeã Maria de Lurdes Mutola.

-Obrigada, Rosa. Voltamos à cidade da Beira, creio que estão criadas todas as condições, Anabela.

 -Sim, Glória. Já estou junto da Doutora Joaquina. Doutora Joaquina, em directo para a nossa emissão de rádio e televisão que nos pode dizer neste 7 de Abril muito especial?

-Aprecio e gosto que a senhora locutora Anabela me trate pelo nome completo. Afinal é preciso estimar as mulheres moçambicanas, não é verdade…»

-Não seja por isso, senhora Secretária Nacional da Mulher de Moçambique, Dra. Maria Joaquina Desdentada Moçambique tem a palavra neste dia muito especial para todas nós.

-Primeiro agradecer muito ao meu padrinho particular e a Deus. De facto, hoje vamos inaugurar os resultados do nosso Xitique Nacional, com a inauguração de 11 estátuas da nossa única campeã olímpica e mundial, Maria de Lurdes Mutola. As mulheres deste país merecem um reconhecimento bem maior, mas como diz o nosso hino nacional «pedra a pedra construimos novo dia. Milhões de braços, uma só força!» E também neste primeiro acto vamos inaugurar três estátuas da heroína Josina Machel, em Nacala, na Matola e na Ponta Gêa. Para fechar este ciclo de homenangens a três das maiores figuras, bem as mais representativas, vamos inaugurar três estátuas da maior figura literária de Moçambique no feminino, que é a Mãe dos Poetas moçambicanos, a nossa querida Noémia de Sousa, por sinal a mais velha deste 1º grupo.  Noémia de Sousa, há mais de 75 anos, junto com José Craveirinha, João Mendes e outros redigiram a primeira carta para a Independência de Moçambique onde hoje é chamado Jardim dos Namorados. São estes os nossos planos como Secretariado para valorizar as Mulheres de Moçambique, mas devo referir que acabamos de aprovar quinhentas bolsas para raparigas por cada província. Para este lote escolhemos como patronas desta 1.ª edição Janet Mondlane, Graça Machel e Marcelina Chissano. Nos próximos anos vamos escolher outras patronas para mais quinhentas raparigas por cada província. Como podem ver na nossa página do Facebook e do Instagram já divulgamos a lista das outras mulheres que correm o risco de ter estátuas neste país. Para terminar, desejo a todas mulheres de Moçambique, dentro e fora do país, que continuem a acreditar e a valorizar o seus sonhos. Muito obrigada!

-Muito obrigada, senhora Secretária-Geral. Devolvo a emissão aos estúdios. Não posso esconder a tamanha emoção…

-Obrigado, Anabela. Responde a Hermínia dos estúdios da televisão nacional. Ficamos a saber, há pouco, que o nome da nossa colega Glória Muianga faz parte da lista referida pela Secretária Nacional.

De Maputo temos uma intervenção da Farida, já com o edil da capital:

– Sim, senhora. A decisão foi da Assembleia Municipal. A antiga avenida Marien Ngouabi passa a partir de hoje a chamar-se Noémia de Sousa. E por coincidência, a antiga rua Noémia de Sousa chama-se Marien Ngoubi. Estamos aqui a inaugurar a estátua de uma heroina de reconhecido mérito, junto ao entrocamento entre a Acordos de Lusaka e a nova avenida Noémia de Sousa. Uma alegria para todos nós do século XX e XXI que aprendemos a conhecer Moçabique na palavra desta grande senhora.

– Obrigadinha, Farida! Continuação de um dia muito feliz. – A festa continua! Passo desde já a ler a lista das mulheres mais representativas, de acordo com a M.M:

Sabina Santos

Reinata Sadimba

Júlia Malizane

Rosária Tembe

Glória Muianga

Zena Bacar

Domingas Salatiel Jamisse

Esperança Sambo

Ana Magaia

Afra Ndeve

Laura Nhavene

Josefa Macadona

Lucrécia Paco

Marta Bocoda Guebuza

Maria Judite

Beatriz Ferreira

Mariana Muianga Chissano

Paulina Chiziane

Tânia Anacleto

Lina Magaia

Angelina Daima

Clarisse Machanguana

Zaida Lhongo

Paulina Mateus

Deolinda Guezimane

Manuela Soeiro

Marina Pachinuapa

*

Quando repararei para a minha avó, apercebi-me que ela dormia, há mais de duas horas. Fiquei o resto da tarde a compor a minha lista para enviar por e-mail à MM!

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