FUMO

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“Ehrlichkeit ist Utopie*“. A frase está estampada na sua camiseta. As letras em preto contrastam aquele vermelho-escuro do tecido. É larga. A parte de frente chega a tocar os joelhos de tanto ser gasta. Caminha quase a cambalear. Não se sabe decidir se avança com o pé esquerdo ou direito. Com uma das mãos tenta apalpar um objecto, uma parede por onde possa se segurar. Tudo o que encontra é o vento que sopra.

Sente o cheiro da queda a se aproximar. Pisa o chão com medo, como se a recusar dialogar com ele. Senta. A cadeira é de madeira e atinge directo nas suas nádegas. Fita a todo o mundo com o olhar. Questiona sem sequer pronunciar uma palavra. Saliva. A baba escorre e decora o pano sobre a mesa. Pessoas ao redor reviram o olhar.

As máscaras escondem a negação do público espectador. O credo não se lhes escapa mais. Ajustam as máscaras. Tentam fintar o cheiro nauseabundo que se faz sentir. Ninguém se pronuncia.

Os murmúrios não conseguem transpor as máscaras. As vozes morrem antes de atingir as cordas vocais. Essa sensação de viver para dentro de si.
Uma mosca lambe o nariz do cidadão. Voa e volta a pousar sobre os seus ombros. Estremece. Quanta insensatez de um animalzinho. Insignificante. Sacode-o. Limpa o rosto. Mete a mão no bolso. Emerge um cigarro. Pede emprestado fósforo. Um isqueiro…. Ninguém se mexe. Levanta. Dirige-se ao fogão à carvão. Acende o GT e cambaleia de regresso ao seu, por agora, lugar legítimo.

Seus dedos finos quase que se confundem com o cigarro. Enche os pulmões, seu corpo se eleva de forma mecânica sempre que dá um “pull“ à droga. E relaxa quando expulsa o fumo. Tosse. Pega no peito. Afaga a região como que a tentar minimizar a dor. O fumo enxugou toda a sua força, como a dor que teima em degolar a sua alma cambaleante.
Do outro bolso nasce um papel. Uma carta amarfanhada. Está cansada. Velha. Sente o peso da idade. Relê o manuscrito com sofreguidão. Uma lágrima escorre. Não é suficiente para tocar na mesa.

Fica ressequida ainda a percorrer a metade do seu rosto. Seus dedos finos abandonam o cigarro. Percorrem o papel de forma suave. Sente-se a intimidade que há entre os dois. Seu olhar agora é distante.

Sua sacola permanece a uns metros de distância. Abandonada. Um carro passa e pisa os seus pertences. Levanta-se, seus olhos ficam vermelhos, as veias dos seus braços ganham forma. A respiração é intensa. Ríspida. Caminha com certeza. Ao encontro dos seus pertences. Recolhe a sacola. Já não cambaleia. Senta de novo. Arregaça as mangas. Sua pele denuncia o cansaço e sua idade. Deve ter uns sessenta e poucos anos. Imagino. Uma tatuagem no antebraço esquerdo. Já sente a fadiga com os anos. Tende a se confundir com o seu Ser. Seus dedos da outra mão passam de leve e identifica as cores uma a uma para o público que assiste de longe: aqui em cima é cor preta. No meio o vermelho. E por fim, o amarelo. Termina o discurso. Ofegante. Por baixo da tatuagem há uma escrita.

“Ehrlichkeit ist Utopie*“. Palavras se lhe escapam quando olha para aqueles escrituras. Tira os objectos da sacola. Sopra o vento. Papéis ganham asas. Um deles embate sobre as minhas pernas. Recolho-o, viro para perceber as escritas antes de devolvê-lo. “Gerechtigkeit braucht Zeit und kommt nie*”. Está escrito no título.
O que não escolhemos pacientemente nos mata. Diz-me. Evito cruzar os seus olhos. Entrego o papel. Começo a caminhar de vagar, de regresso à fila para tomar o transporte. O cidadão arruma as suas coisas. Olha para o relógio. 14 horas de uma quarta-feira quente.

O dia avança. A pandemia engoliu a manifestação rotineira. Mas a sua vontade continua intacta entre a poeira que vai consumindo aqueles papéis na sacola. E o fumo que vai tomando conta dos pulmões. Morre-se lutando…!

*Ehrlichkeit ist Utopie“- a honestidade é uma utopia

*“Gerechtigkeit braucht Zeit und kommt nie- a justiça leva tempo e nunca chega

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