Manuel

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Forever Young, de Kate Kos (The Whitethorn Gallery)

Por: Pedro Pereira Lopes

Para manter os seus canaviais saudáveis, uma companhia açucareira fez valas que se estendiam por quilómetros. As valas eram alimentadas por um grande rio.

Com o tempo, os braços de água desenvolveram seu próprio ecossistema, com algas, nenúfares e peixes aos montes.

Durante o verão e porque não havia mar por perto, os meninos davam novo proveito aos riachos, indo para aí refrescarem-se, mesmo contra a vontade e advertência dos pais. O caudal das águas era sempre maior no verão, por causa das chuvas, e os riachos, que ficavam cada vez mais fundos, recebiam, por consequência, grandes volumes de água, aumentando os riscos de afogamentos. Por conta disso, dizia-se que as valas eram frequentadas por crocodilos albinos e uma enorme serpente vermelha, que usava uma barba de cerca de trinta centímetros, e por sinal, devoradora de crianças. Era terror inútil: a miudagem não ficava assustada.

Numa tarde de sábado, os rapazes dirigiram-se a um dos riachos. A água cor de prata estava morna. Os meninos davam piruetas e jogavam à bola. O Manuel, desconhecedor das leis da imersão nos líquidos, resolveu aliviar-se dentro da água. Não houve segredo. As fezes subiram e começaram a vagar, à deriva. Os meninos abandonaram a água morna e não puderam conter as gargalhadas.

Manuel Cocó, chamou-lhe um.

Manuel Cocó! Manuel Cocó, repetiram os outros, um a um, em meio às gargalhadas.

O tempo passou e o Manuel ainda conserva o apelido.

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