Macaco homem

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Monkey-Man de Andrew Tong

Por: Pedro Pereira Lopes

Havia uma crença, entre os macacos, que quando morressem renasciam como homens. Era quase religião, seguida com devoção, ainda que daquilo não houvesse testemunho. Um dia, um macaco escolhido pelos deuses morreu, e de forma inusitada, depois de algum tempo, sobreveio ele no sonho do melhor amigo:

Então, é tudo verdade? Foram dois anos, símio miserável, disse o vivo, em cobrança à promessa de satisfação.

Não é fácil fazer contacto, o macaco tossiu, aclarando a garganta. Ouve com atenção, pois tenho pouco tempo. Quando morremos, nascemos outra vez macaco…

Merda, gritou o macaco vivo, com desânimo visceral.

Não há evolução ou reencarnação coisíssima nenhuma. A nossa religião não deve ser a verdadeira.

O macaco que sonhava não sabia se chorava ou acordava. Estava velho e não se via macaco na vida seguinte. Sacanagem, macaco outra vez? Será que lhe mentia o amigo? Queria ser humano. Ficou calado por meio minuto, desavindo, a contemplar a aparição do amigo, que flutuava, metade animal, metade nuvem. Não via muito sentido no que ouvia.

E por que é que vieste tão tarde?

O macaco aparição sorriu:

É uma longa história, disse, depois sorriu outra vez, muito matreiro.

Tenho ainda metade da madrugada, respondeu o macaco que sonhava.

Não te posso falar muito da outra vida. É quase proibido.

Não te esqueças que é uma promessa de vida e morte.

Está bem. Um dia, desobedeci às leis da floresta e fui à cidade dos homens. Afinal era macaco e correram comigo à pedrada. Como estava cansado, refugiei-me numa cabana, que ficava no fundo de uma casa grande. A cabana era uma espécie de santuário e a velhota, que era cega, pensou que eu era a reencarnação do seu falecido esposo. Desde lá, trata-me como humano, tenho várias refeições ao dia e traz-me oferendas.

O outro macaco desconfiou mas, antes de poder interrogar mais o falecido, o amigo desapareceu.

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