O ciclista de Goba

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O ciclista, de Gerard Sekoto

Por: Pedro Pereira Lopes

A remota vila de Goba, que faz fronteira com a Suazilândia, é sitiada por montanhas e matas de espinhosa vegetação. A população é diminuta e misteriosa. Nas noites, há pouca alumiação e nunca se tem certeza do que se está a ver.

Esperanço, a quem alcunharam de “Xis-Pê”, acabara de mudar-se para a povoação, para uma vaga no posto de fronteira. Quando não estivesse a trabalhar, Xis-Pê estava decerto a beber. Ouvia as assustadoras e intrincadas histórias da vila e punha-se a troçar, com ousadia:

Fantasmas, serpentes voadoras, feiticeiros, canibais e porcaria limitada não existem.

Num fim de tarde de um dia, em que estivera a beber, Xis-Pê recebeu uma intimação para substituir um colega, que tinha adoecido. Amaldiçoou o emprego,

que funcionava na base de ordens militares

e resolveu seguir caminho. Já estava escuro e não havia transporte para o posto fronteiriço.

Ia a caminhar; em bom ritmo, hora e meia era suficiente. Do coração da vila, Xis-Pê tomou um carreiro e saiu onde começava uma pequena ponte. Quando estava a meio da estrutura, viu, de longe, uma bicicleta, que se aproximava em alucinante velocidade. Decidiu pedir boleia.

Para onde é que vai, meu amigo, perguntou o ciclista.

Para a fronteira. Vou trabalhar.

Está com sorte, meu amigo. Suba!

Nos minutos seguintes, não houve comunicação. Xis-Pê sentia a brisa no rosto e gostava bastante. O ciclista era um habilíssimo ciclista.

O senhor é mesmo bom, um profissional. Pedala muito bem, elogiou Xis-Pê.

O desconhecido ciclista deu uma risada doentia:

Isso não é nada, quando eu estava vivo…

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