“Por que serão as respostas tão divinas e não humanas como viver o pede?” – Eduardo White

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O escritor e designer Mélio Tinga ficcionou uma conversa com Eduardo White. Boa leitura.

Encontramos Eduardo White, sentado no lombo de Dormir com Deus e um navio na língua. Um copo sobre à mesa. Gelo a definhar, morrendo a pouco e pouco. Havia muita luz, ocasião própria para perguntar a um poeta sobre as suas convicções e crenças. Ligamos o gravador para falar de Deus, navio e da língua. White abanava o pé, ritmicamente, como se dançasse o seu corpo por dentro. O sapato preto luzia. Olhava para o horizonte. Fechou os botões da camisa. Ajustou os óculos e a boina. E seguimos.

White, que definição tens de Deus?

Deus é um poro que sua a sua febre, nervo na ramagem da pele, uva esquiva em seu fermento, pão que amadurece, ruga visível da idade, ave paciente a subir para o Universo, semente, esperma útero profundo rindo-se da morte.

A Deus pedes coisas, imagino. Ele costuma responder-te?

Deus não responde e o bronze que é toda esta angústia, é uma realidade branca e fria como o gelo. Rezo. Talvez O comova dessa forma, O aflija diante de tanta súplica.

E quando o denuncias em um poema?

Deus assusta-se e afasta-se. Sinto que o faz por medo de se tornar humano.

Se tivesses que O fazer uma pergunta, uma só. Qual seria?

Por que serão as respostas tão divinas e não humanas como viver o pede?

Na tua opinião, qual é a tarefa mais amarga de um poeta, hoje?

Dar chegadas às partidas e dar partidas às chegadas.

Os poetas vivem de desejos. O que queres, o que te apetece agora?

Quero um musgo alto e uma erva esguia, uma pedra antiga, enegrecida, uma vaga ideia ali gravada, um cheiro a mofo que convoque alguma frescura. Quero uma calma confusa a juntar-se ao fundo como paisagem e homens falando.

As pessoas olham para ti com entusiasmo e admiração. Tenho consciência que atravessaste por turbulências até chegar aqui. Sente-te um homem forte?

Não sou forte, não pretendo sê-lo, quero para este tempo o “tesouro relojoeiro” de ser original e verdadeiro e, se isso é não ser forte, ser então suficientemente para conhecê-lo.

Uma vez o teu poema calou a boca de um homem cuja língua parecia pesar-lhe em demasia…

Uma língua com navios não se balbucia, exerce-se.

E onde está a diferença entre uma língua e um navio?

Uma língua sonha. Um navio é uma existência com essa rota. Uma língua estende-se, um navio parte. Um interior ao sentido exterior do outro.

Uns lambem. Outros molham. O que é que costumas fazer com a sua língua?

Com a minha língua, de braço dado, passeio o navio que sobre ela tenho e sou eu, e não me consome, ante tudo aquilo, nenhuma angústia.

Daqui, da sua janela, como olha para o horizonte, enquanto poeta?

O Horizonte, visto daqui, é uma coisa diversa porque vislumbramos anterior à nossa presença e dele nada descortinamos com real certeza para além dessa estranha evidência que, surgindo, de imediato se afasta como sua.

Olhas muito para o céu, pesa-te alguma coisa?

Este céu é o território do sono, é a carga extraviada das minhas pálpebras.

Vejo que gosta de beber com gelo…

Este gelo faz lembrar-me Matsuo Bachô.

Parece que a aranha ali te acalma o âmago. A aranha lembra a visão sossegada de nós próprios, essa quase inatingível construção que ansiamos ser em adultos e que só se torna facto quando a velhice se nos depreende com a pena, a memória respira melhor que o próprio coração, a lucidez está fugitiva e a visão, ela em si, dói já tanto de tanto só ter olhado.

Mélio Tinga

Mélio Tinga é designer de comunicação, escritor e empreendedor, natural de Maputo. Co-fundador da DESIGN Talk e editor da Revista DEZAINE, colunista permanente no Design Culture (Brasil).

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