Mudungaze na Itália: está tudo ligado

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O muro para Donald Trump, por exemplo, é sinónimo de divisão, mas para o movimento urbano de street art é uma tela para uma obra. “Viens of Society” de Mudungaze, que estará exposta na edição online do Fouri Vision 6, transmitido a partir da cidade de Piacenza, na Itália, surge deste questionamento.

Quando recebeu o convite para este festival de arte contemporânea, performance, dança e teatro, que irá decorrer entre os dias 11 e 15 de setembro, o artista plástico moçambicano indagou-se: como reflectir esse signo, o muro?

– Ora vejamos, a obra é um muro de vidro que representa a fragilidade social, as mudanças estruturais que a pandemia traz – disse Mudungaze, a explicar a resposta ao questionamento.

O único artista africano na sesta edição do Fouri Vision 6 esclareceu instantes depois: mas a obra não é exactamente sobre a Covid-19. É sobre a inversão de valores, o caos em que vivemos.

A intenção do autor da obra, disse-nos, “é ilustrar a fragilidade da existência humana, a conexão umbilical que une a nossa espécie”.

Mudungaze desenvolveu “Viens of Society” em 2019, numa residência artística no Centro de Investigação Artística – Hangar, em Lisboa, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

“Na concepção dos padrões, pensei nas veias como forma de mostrar que o ponto de ruptura é tão próximo”, disse, por um lado. Por outro: as veias interligam-se no sistema biológico humano. É como o globo, a natureza.

“Está tudo tão ligado que alguém da China, outro na Finlândia, no Burundi ou na Bolívia, neste momento, sente o mesmo medo”, explicou Mudungaze.

A separação traçada pelas fronteiras, entende, é uma negação da Pangeia, continente que antecede a divisão feita pelos oceanos. “Hoje estamos tão próximos que as divisões são quase psicológicas”, observou.

A proposta surgiu depois que “uma das curadoras do festival viu o meu trabalho, quando apresentei em Portugal”, contou. Estava previsto que o artista plástico moçambicano participasse presencialmente, o que teve de alterar em consequência da situação sanitária que o mundo atravessa, sendo a Itália um dos países mais atingidos da Europa.

“Com a eclosão do Covid-19 tivemos que refazer todo o plano da exposição, tendo criado uma forma interativa de apresentar a obra, que agora terá outra dinâmica e dimensão estética com a inserção de elementos de áudio, vídeo, fotografia que através de cliques os visitantes online poderão fazer parte do imaginário da obra”, disse Mudungaze.

O artista plástico estará online a conversar com os internautas e nessas ocasiões irá colher as percepções sobre a sua criação.

 “Viens of Society”, descreveu Mudungaze, é composto por 24 objectos, cada um com quatro escalas, que comunicam de forma interactiva com o visitante do blog do festival. “Foi um trabalho intenso de 2 meses e muita paciência por parte da curadora Carlotta Biffi, que trabalhamos intensamente neste projeto”.

Com formação na área da comunicação e documentação e arquivo, Mudungaze, nome artístico de Hélder Manhique, interessou-se pela área da dança, tendo produzido documentários para o Ministério da Cultura de Moçambique sobre o uso de máscaras nos vários tipos de danças do país. Autodidata, começou a esculpir e a produzir peças com objetos considerados desperdício – restos de metal e de lixo –que foi recolhendo e colecionando ao longo da vida.

No âmbito do apoio à mobilidade de artistas dos PALOP da Fundação Gulbenkian, Mudungaze integrou uma residência artística na Maria Augusta produções, da Companhia de Teatro de Braga em 2019, que resultou em duas exposições. Nesse ano, participou ainda numa residência no Hangar, em Lisboa, onde concebeu a obra que agora será apresentada no festival italiano, “Viens of Society”, que representa a perspectiva do autor sobre a crise social e de valores que o mundo atravessa.

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