Visitar a história com as mulheres que Rangel eternizou…

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Através das fotografias de Ricardo Rangel, o Centro Cultural Moçambicano-Alemão, em parceria com o Centro de Formação Fotográfica, narram uma parte da história do país, tendo nas mulheres as protagonistas.

Sob coordenação de Marial Elisa, que, igualmente, ao lado de Yvone Trapp, fez a curadoria, a exposição “Ricardo Rangel: Homenagem à Mulher Moçambicana”, estará patente até 31 de Agosto, data em que completará um mês de exibição.

As fotografias a preto e branco, reveladas em câmara escura pelo veterano Eduardo Matlombe, convidam a uma viagem que parte do período colonial, revelando diferentes ambientes e contextos sociais, nos quais as mulheres viviam e termina no tempo da fome, como é conhecida a década 80, dominada pela precariedade.

Boemio que era, Ricardo Rangel revela-nos uma Rua Araújo e outros bares que faziam a vida nocturna da Maputo colonial, onde, ao que as imagens ilustram, caiam por terra as concepções racistas propaladas pelo regime fascista que encabeçou a fase áurea do domínio português, no século XX.

“As prostitutas[negras]”, observa Paulina Chiziane no texto de apresentação da mostra, “desafiavam o preconceito entre as raças e mostravam que mulher negra era gente”. E prossegue recordando que “os colonos brancos, racistas de dia, encontravam satisfação nos braços das prostitutas”.

A escritora referia-se as fotografias das noites, que estão compostas por mulheres – que poderão ter inspirado o poema “Felismina” de José Craveirinha – e homens, em ambientes de lazer com álcool e tabaco a mistura.

Cronologicamente ainda situado no pré-75, encontramos outros registos históricos com pistas para formulação por parte das  novas gerações da compreensão sobre, por exemplo, a presença indiana – que hoje controla parte do comércio nacional – no país. Há, evidentemente, outros elementos mais esclarecedores sobre esta questão.

O registo fotográfico “Campo de concentração de indianos após anexação de Goa, Lourenço Marques”, de 1961 é povoado por mulheres e famílias inteiras, a transportar sacos, provavelmente, com os seus pertences, numa situação de pobreza.

A fotografia de Noémia de Sousa (ainda moça) e Dolores Lopes, de 1950, patente na exibição é uma das mais icónicas, tendo em conta o papel da primeira mulher na literatura – é-lhe atribuída a maternidade da nossa poesia – e na política, se recordamos que acolheu na sua casa, em Paris, alguns membros do movimento de libertação nacional.

Entrando para o interior do país, distante dos meios urbanos, Ricardo Rangel legou-nos uma mulher de capulana e lenço, num caminho estreito, ladeado por capim alto, a carregar um saco envolvido noutra capulana, pela cabeça. O título da obra é “Mulheres transportando mercadorias”, de 1960.

Nos anos 80, quando Moçambique, de orientação socialista na perspectiva marxista-leninista, foi arrastado para a guerra dos 16 anos, em parte vítima da Guerra Fria, as mulheres, conta Paulina Chiziane, foram obrigadas a reinventar-se.

“De madrugada, elas saiam de casa e marcavam o lugar na bicha de pão com uma pedra ou cesto velho”, que não escaparam a objectiva de Ricardo Rangel, que registou cestos para as lojas e cooperativas na cidade e latas no campo, para cartar água.

No registo “Falta de água na cidade”, Maputo, de 1984, vemos uma mulher, a atravessar a avenida Eduardo Mondlane, na zona nobre, carregando uma lata de água na cabeça, em resultado da escassez que se registou.

Paulina Chiziane resume esse contexto, ainda marcado pela evacuação de prostitutas – entre equívocos – para os Centros de Reeducação, edificados na lógica da construção do Homem Novo.

“Extraordinário: nesse tempo, as mulheres falavam uma linguagem geométrica aprendida na dura matemática da sobrevivência”, lê-se no texto. É certo que, este excerto referia-se, em concreto, as disputas de pedras que marcavam lugares na bicha, mas, pelo que as fotografias ilustram, alastra-se.

Com esta exposição, algumas gerações recapitulam episódios e outras descobrem velhas realidades aprendidas nos manuais de história e Ricardo Rangel, mais uma vez nos mostra que fotografar não é simplesmente ilustrar: é provocar, é irritar, revelar…e lá no fundo, eternizar momentos singulares.

O fotógrafo moçambicano, Ricardo Achiles Rangel nasceu a 15 de fevereiro de 1924, em Lourenço Marques (atual Maputo), tendo falecido a 11 de junho de 2009, aos 85 anos, na sua terra natal.

Descendente de uma família proveniente de gregos, africanos e chineses, Ricardo Rangel cresceu na casa da avó africana e visitava regularmente os pais que viviam nas Províncias de Maputo.

Em 1941 foi aprendiz no laboratório de fotografia de Otílio Vasconcelos. Em meados dos anos 40, trabalhou no laboratório Focus, onde ficou conhecido como um impressor de preto e branco. Em 1952, foi o primeiro repórter fotográfico preto a entrar para o jornal Notícias da Tarde e num órgão de comunicação, passando, em 1956, para o Notícias. Em 1960, Ricardo Rangel foi chefe fotógrafo do A Tribuna, que abandonou, em 1964, por razões ideológicas. Em meados dos anos 60, trabalhou, na Beira, nos jornais Diário de Moçambique e Voz Africana e, mais tarde, em Notícias da Beira.

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