Valete Zygmunt Bauman e o status quo: (Uni) versos contemporâneos ?

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O mundo vai cada vez mais rápido. Há dias alguém escrevia que no nosso século, um ano parece uma década, tendo em conta a série de eventos (tornados importantes) que ocorrem. A media, actualmente, com a actualização permanente retira as pessoas o tempo de absorverem determinados factos de impacto global.

A olhar para esse quadro, recuperei uma reflexão que escrevi no dia 16 de Janeiro, a olhar para o quotidiano através das lentes de Zygmunt Bauman e Valete. É uma leitura que limita-se aos primeiros eventos do ano mas que, a esta altura terem caído no esquecimento prova que o sociólogo e filósofo polonês, infelizmente, estava certo.

“Fluidez” é a qualidade de líquidos e gases. (…) Os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. (…) Os fluidos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam” (…) Essas são razões para considerar “fluidez” ou “liquidez” como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase (…) na história da modernidade.

Zygmunt Bauman

Valete, há dois anos, regressou de uma década de profundo silêncio. Desabafa que com a morte do pai ruíram as suas bases, os seus alicerces a ponto de perder-se em “garrafas de John Walker”. Era um regresso à altura de um colosso das ruas, da reivindicação política, da emancipação intelectual.

“Rap Consciente” viralizou no YouTube (http://bit.ly/MbengaArteRfxs) conta milhões de visualizações.

Mais perspicaz, evidentemente, que “Serviço Público”, recebemos um Valete – não no prometido e ansiado “Homo Libero” – que “cospe” estrofes em forma de prosa (se bem que “Poder” é até mais esclarecedora neste sentido) e nisto apresenta o diagnóstico do status quo do rap lusófono. Neste exercício, situando a música num tempo – faz o mesmo em “Colete Amarelo” (dedica aos irmãos moçambicanos que tinham sofrido o Idae e assume-se mais um militar para lutar contra Bolsonaro) diz-nos:

“Manos em Angola perseguidos por ativismo

Geração Snapchat ancorada no narcisismo

Terceira Guerra Mundial entre Ocidente e Jihadismo”.

Em apenas dois anos o mundo mudou muito rápido e foi se tornando cada vez menos previsível, instantâneo, efêmero. Mas é o tal ciclo da História. O que apavora são os paralelos que o passado oferece. Por exemplo, a ascensão de Hitler foi por via democrática. Quando anunciou a candidatura o establishment fez chacota. A ala conservadora alemã não esperava aquele resultado. Trump chega ao poder de igual forma, mera coincidência. Ao ouvir a música fui levado a pensar nalgumas transformações ocorridas nos últimos dois anos.

(i)Quando pego num jornal, vou aos portais online, ligo a televisão, hoje, é Isabel dos Santos, considerada pela Forbes, há alguns anos, a Mulher mais rica de África – actualmente na oitava posição do mesmo ranking, sem descriminação do género, com uma fortuna avaliada em  2,3 mil milhões de dólares – que dá nas vistas. É a filha mais velha de José Eduardo dos Santos, ex-presidente daquela janela do Atlântico (empréstimo de Celso Muianga) que está no centro de um esticar de cordas no limite com João Lourenço, o actual PR palanca. Há ainda, em Portugal, o processo contra a ex-euro-deputada Ana Gomes nos holofotes. A Tchizé (Welwitschia dos Santos) é outra. Para não falar do Zenu (José Filomeno) outro filho do monarca (perdão, ex-presidente, é que quase 40 anos confundem fácil) que se encontra no banco do Réu a responder pelo desvio de 500 milhões de dólares, no Fundo Soberano de Angola, órgão de que foi presidente (a revista semanal Expresso dedicou-lhe uma capa, cogitando a possibilidade dele ser o substituto do pai, nos últimos anos do seu reinado).

Os “15+2”, presos por ler um livro, num (suposto) regime democrático, Estado de Direito, já nem são assunto, seus actos heróicos perderam-se entre os gb’s de informação que circulam instantaneamente.

(ii) Se em 2017 as sondagens indicavam que nos Estados Unidos e na Europa o Instagram e o Snapchat iam tirando o protagonismo do Facebook no público adolescente (12-17 anos), Zukeberg que procura hegemonia (absolutismo? Totalitarismo? …ham ok: monopólio) no mercado das redes sociais (proprietário do Instagram, Whatsapp) contrariou as previsões, activando os story’s    nas suas redes. A Snap embora tenha equilibrado os prejuízos, assiste uma queda massiva de usuários.

(iii) Enfraquecido o Jihadismo que ameaçava instalar uma Terceira Guerra Mundial, o fundamentalismo islâmico ameaçou (ameaça) tomar o mundo. Esse espetáculo perdeu relevância. E Trump, (conforme analistas) para fintar o impeachment que corre internamente contra si, autorizou as suas forças a assassinar Soleimani (1957-2020), um major-general iraniano da Guarda Revolucionária Islâmica (GRI) e, de 1998 a 2020, comandante da Força Quds. As crónicas da BBC, Estadão, Público descrevem-no como extremamente influente e responsável pela diplomacia militar externa do Irão. A sua influência estende-se pelo Oriente Médio. São diversas forças envolvidas. E por essa razão há quem esclareça: esta morte é mais impactante que a de Bin Laden (que comandava uma seita, não era nenhum alto funcionário de Estado). A Ucrânia, ao acaso, entrou no conflito com a queda do seu avião comercial do seu país, abatido por míssil iraniano. Bases americanas foram atacadas. Os discursos são de guerra, de vingança de sangue. Não há diálogos, só ameaças. A Greta Thunberg perdeu o protagonismo. A crise migratória a emigração vai se reduzindo a nota de rodapé nos media mundial. Gutierrez, às vezes, faz qualquer afirmação. E as Nações Unidas, tal qual a Sociedade das Nações (Société des Nations, League of Nations), que na sequência de Hitler, em 39 ter iniciado II Guerra Mundial, em 1942, cessou, é incapaz de intervir.

Zygmunt Bauman contrastava este tempo que ele descreve como líquido com o que considerava sólido, em que tudo decorria num processo lento, o que facilitava previsões. No tempo presente é tudo imprevisível. As redes sociais, lugar, muitas vezes, do instantâneo, do efémero, o fugaz, vão se tornando fonte oficial de informação de Estado. Trump, Bolsonaro, Boris Johnson. Até a UNESCO concebeu um manual, o “Ensinar e aprender com o Twitter) porque é uma esfera pública que só cresce. A velocidade é veloz. É a velocidade da luz. Em dois anos o mundo viveu transformações e situações que desafiam a heroicidade de Ulisses.

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