Hoje peguei o remote

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As águas continuam a escorrer pelos becos, mas já não com a mesma intensidade que antes, tal como Pedro se habituara ao longo dos anos. De óculos graduados, espreita pela janela e contempla o espectáculo do que a natureza brinda o seu bairro.

Sorri, tira os óculos embaciados pelas gotas de água que lhe chegavam da janela. Conhece o cheiro do seu bairro – esteve lá a vida toda- da sua gente, do chão lamacento. Sabe que depois da bênção, tudo há-de estar escorregadio.

Os lugares depois de muito tempo passam a fazer parte de nós. Pedro sabe bem disso. Senta-se no sofá que já gagueja à velhice, a esponja escassa alimentou os outros animais que sobrevivem naquela residência, as molas agora são cobertas de mucumes.

Pedro não se zanga, o pobre partilha o pouco que lhe falta. O televisor, abraçado à parede, exerce o seu ofício. “Quatro anos depois”, dialoga com os seus internos, “estou a pegar o remote”.

Acaricia o objecto preto. Desconhece o maneio da tecnologia, e ela nem se importa em conhecer o ser humano. “Essa coisa de remote mudou muito”.

-Mas você não se deixa conhecer pela tecnologia, atira-lhe na alma, a Jozefa, sua esposa. Estão casados há anos, conhece todas as manias do marido. Só o casamento é capaz de tornar duas almas numa só.

Pedro ri, sabe que as malícias da esposa vêm acompanhadas de algum atenuante. Vira para ela, que está na mesa a organizar o pequeno-almoço.

A idade roubou um pouco do brilho do termo com água quente. O pão em pequenas tiras espalha o seu perfume, da cozinha chega o aroma dos pasteis de feijão.

“Não te esqueças daquele piri-piri para adocicar as badjias”, belisca a memória da esposa. Vira a sua atenção para o televisor. Com a idade, o ser humano aprende a mania de ver o mundo através da caixinha mágica. É coisa da velhice. Salta de canal em canal em busca de uma notícia que prenda a sua atenção. Três delas concentram a retina:

Notícia 1.

Ele não pensou duas vezes. Com um golpe mortal martelou a cabeça da vítima. A cara já diz tudo, as imagens que passam na tela são do domínio da polícia. O meliante já vinha sendo procurado.

O assassino não tem sentimentos!

Notícia 2.

Os sanguinários não tiveram escrúpulos e nem piedade. Invadiram a residência e saquearam os bens.

A quadrilha é conhecida por perpetrar assaltos à mão armada. A polícia está a apertar o cerco aos criminosos. Eles são dos bairros arredores da metrópole.

Notícia 3.

Tudo indica que um suposto dirigente teria participado num esquema de corrupção. Pedro aperta o botão para o outro canal. O silêncio ecoa na sala de estar. Depois levanta-se e vai à mesa. Puxa a cadeira de madeira e senta-se. Degusta das suas badjias, enquanto agita o chá na chávena que repousa na mesa. A esposa contempla o silêncio do marido. Sabe que aquele semblante é de questionamento introspectivo.

Toma a sua caneca de chá, também. – Acho que desta vez ‘Deus não vai salvar o Rei´, comenta para a esposa. A chuva passou, tem de sair de casa em busca do pão para sobrevivência.

Calça as botas, pisa o chão, fecha os olhos e sente os seus pés a gelarem com as águas que ainda varrem as ruas. Sabe que ao regressar para casa há-de se aquecer na “fogueira” da sua Jozefa. E o remote só daqui a quatro anos, talvez…

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