50 Anos de uma linha de passe entre Moçambique, Brasil e Portugal

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Marílio Wane*

I – O campo

Ano de Copa do Mundo é um período que o assunto “futebol” domina as conversas entre amigos e familiares, bem como parte importante do debate público a nível global. Entre comentários sobre jogadores, equipes e os confrontos da competição actual, é também um momento de celebração da memória do próprio desporto, em que feitos do passado são trazidos ao presente para melhor contextualizar os jogos ou simplesmente para alimentar o interesse do público. Entretanto, no meio disto tudo, a passagem um facto histórico da maior importância parece não ter sido devidamente registado por aqueles que tratam da memória colectiva dos três países envolvidos, neste caso.

No dia 30 de Junho de 1968, portanto, há exactos 50 anos, foi inaugurado o Estádio da Machava, aquele que durante décadas, foi o principal palco do futebol moçambicano[1], tendo abrigado os principais clássicos, bem como os jogos da selecção nacional. Muito além disso, o Estádio da Machava é considerado oficialmente como um “Local Histórico” pelo facto de, sete anos mais tarde, a 25 de Junho de 1975, ter sido o local escolhido para a proclamação da Independência nacional. Diante de uma multidão exultante e esperançosa por novos tempos, Samora Machel, o primeiro presidente do país, declarou a “independência total e completa” e a sua “constituição em República Popular de Moçambique”. Enfim, estamos a falar de uma Nação simbolicamente “nascida” em um campo de futebol.

Voltando à 1968, o Estádio da Machava foi originalmente designado como “Estádio Salazar”, em homenagem a António de Oliveira Salazar, Primeiro-Ministro de Portugal e líder do Estado Novo, o regime fascista que praticamente se confunde com o próprio colonialismo português no século XX. De tal forma que a inauguração do estádio revestiu-se de todas as honras dignas de uma cerimónia oficial de Estado tornando-se, inevitavelmente, num acto de propaganda política do regime. De facto, na altura, o projecto da construção foi concebido para ser o maior empreendimento desportivo do governo português nas colónias; para além do campo de futebol, uma pista de atletismo e outras infra-estruturas para a prática de outras modalidades estavam contempladas e foram entregues.

Selo comemorativo alusivo à inauguração do “Estádio Salazar”, a 30 de Junho de 1968

II – O jogo

E para celebrar o evento, a cereja do bolo foi nada mais nada menos que um jogo amigável entre as selecções nacionais de Portugal[2] e do Brasil. Para se ter uma ideia da dimensão desta partida, basta dizer que tratava-se de um confronto entre aquelas que são consideradas algumas das mais importantes formações dos dois lados. Do lado português, estamos a falar da selecção que alcançou, até hoje, o resultado mais expressivo da história do futebol nacional: o terceiro lugar na Copa do Mundo de 1966, realizada na Inglaterra. E do lado brasileiro, falamos da base da equipe que, dois anos mais tarde, veio a conquistar a Copa do Mundo de 1970, disputada no México. Contando com jogadores como Pelé, Tostão, Rivellino, Jairzinho, Gerson e outros, é por muitos considerada a melhor formação de sempre no Brasil e uma das melhores de todos os tempos.

Sobre o seleccionado português, é incontornável referenciar dois de seus principais jogadores: Eusébio Ferreira da Silva e Mário Esteves Coluna. Ambos dispensam apresentações, entretanto, para efeitos do tema tratado aqui, o facto de serem naturais de Moçambique é particularmente significativo, tendo em vista o carácter propagandístico do evento. Curiosamente e por razões que vale a pena investigar, Eusébio, a estrela maior “portuguesa”, não pôde disputar a partida, desfalcando consideravelmente a sua equipe. E como que para equilibrar, o lado brasileiro teve também a sua baixa: ninguém menos que Pelé, considerado como “o atleta do século”, que não participou porque disputava jogos amigáveis pelo Santos, o seu clube no Brasil.

Neste que foi o primeiro jogo das duas selecções no continente africano, o facto é que o jogo terminou em duas bolas a zero a favor dos brasileiros, cujos tentos foram anotados por Rivellino e Tostão. Ambos eram também considerados como alguns dos melhores jogadores daquela equipe e de seus clubes no Brasil, Corinthians e Cruzeiro, respectivamente. Por acaso, recentemente, os dois, cada um à sua maneira, fizeram referência à partida que, como veremos a seguir, é pouco conhecida do público do futebol de uma maneira geral.

Rivellino falou sobre o jogo num comentário casual durante um programa televisivo[3], no qual discorria sobre o “elástico”, o drible que era a marca registada de seu talento como jogador. Entre outros aspectos, orgulhava-se de tê-lo aplicado em verdadeiros “monstros sagrados” do futebol, como o alemão Franz Beckenbauer e o moçambicano Mário Coluna. Infelizmente, a conversa não se desenvolveu no sentido de se explorar mais o assunto. Ficou-se por aí. 

Por sua vez, Tostão refere-se ao jogo em “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos: um olhar sobre o futebol”, livro de memórias publicado em 2016, em que reflecte questões actuais através da sua longa e marcante experiência como futebolista. Nas suas palavras: “Nessa ocasião, fizemos um amistoso contra Portugal em Lourenço Marques (actual Maputo), capital de Moçambique que na época, era colónia portuguesa. Quando chegamos ao aeroporto, havia uma enorme multidão e todos gritavam: ‘Pelé! Pelé!’. Imaginei que não sabiam que Pelé não estava presente. No hotel e nos treinos foi a mesma coisa. Quando chegamos ao estádio para o jogo, a multidão era muito maior. Continuavam gritando por Pelé, e pensei que todos entrariam para ver o jogo. Quando começou a partida, olhei em volta, e o estádio estava quase vazio. Aí, compreendi que o ingresso era muito caro e que só os portugueses mais ricos assistiram a partida. Os africanos não viram o jogo nem Pelé”.

Linha de frente da mítica Selecção de 70: Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé e Rivellino

III – A memória

Apesar de toda a densidade simbólica contida neste jogo histórico, é amplamente desconhecido de boa parte do público (de futebol ou não) nos três países envolvidos. É certo que talvez deva-se à ausência de Eusébio e Pelé, que eram duas das grandes estrelas do futebol mundial na altura e que, certamente, dariam maior visibilidade ao confronto. Entretanto, para além deles, um outro grande ausente (não) se fez sentir: o próprio homenageado. Contrariando a expectativa inicial de acordo com a programação do evento, António Salazar não compareceu à cerimónia de inauguração devido a um outro compromisso como Chefe de Estado[4]. Ou por alguma outra razão. A investigar… Aliás, deve-se registar aqui o curiosíssimo facto de, em mais de quatro décadas de governo, Salazar praticamente nunca ter saído de Portugal, naquele que pode ser considerado um retrato mais do que caricato do provincianismo de uma mentalidade fascista.

Como se costuma dizer, a memória constitui-se não apenas daquilo que se é lembrado, mas também daquilo que se é esquecido, de modo a se construir uma determinada interpretação dos eventos históricos, gerando uma narrativa. Em outras palavras, estes eventos são lembrados ou esquecidos de acordo com a conveniência, que pode ser ditada por interesses de certos grupos sociais, pelo momento ou pela dinâmica própria da vida social. Mesmo pessoas que viveram ou testemunharam um determinada situação podem ser literalmente traídas pela narrativa petrificada de um memória construída ou idealizada. Neste caso, por exemplo, é comum ouvir de pessoas de idade avançada que viveram na Lourenço Marques de então, que Eusébio e Pelé jogaram a partida. Quando sabemos que, objectivamente, não se fizeram presentes.

Curiosamente, uma figura que tem lembranças do evento é Dilon Djindji,  ícone da música ligeira moçambicana que, à época, já começava a despontar no circuito musical suburbano da cidade. Em depoimento recente[5], o auto-intitulado “rei da Marrabenta” afirmou ter trabalhado na construção do estádio, como de Chefe de Gabinete de Melhoramentos da empresa estatal Caminhos de Ferro de Moçambique (proprietária do estádio desde então até os dias de hoje), função que exerceu entre os anos de 1953 e 1954. A referência a este facto deu-se de forma casual, sem maiores desenvolvimentos, o que nos leva a crer que a recolha de mais depoimentos em primeira pessoa possam descortinar aspectos interessantes sobre o evento como um todo, dada a escassez de registos a respeito.

Seja por escassez ou indisponibilidade dos eventuais registos (mesmo tratando-se de uma cerimónia de Estado), faz-se necessário um breve recuo ao contexto político e histórico, que pode dizer muito sobre a nuvem de esquecimento que paira sobre o tema. A década de 1960 marca uma viragem crítica na dinâmica do colonialismo português, motivado sobretudo pelas lutas de libertação nos territórios sob seu domínio em África e na Ásia. Na verdade, tais movimentos ecoavam um processo maior de descolonização a nível global, impulsionado pelas primeiras independências nos dois continentes já a partir da década de 1950. De modo que Portugal passa a sofrer forte pressão internacional devido ao anacronismo da sua política imperialista somada às graves violações dos direitos humanos correlacionadas.

Como resposta, num primeiro momento, o regime salazarista apostou numa propaganda política assimilacionista, em que tentava convencer a comunidade internacional da inexistência de uma situação “colonial”. Para tal, lançou mão do luso-tropicalismo,  uma teoria criada pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre[6], como a ideologia oficial, cientificamente legitimada. De forma sucinta, esta corrente de pensamento afirmava uma especificidade congénita dos portugueses na sua relação como as populações e territórios dos trópicos sob seu domínio, que resultaria numa convivência harmoniosa, onde todos sentiam-se “portugueses”. Entretanto, o avanço das lutas de libertação no continente africano obrigaram o regime a soluções mais repressivas, notadamente a partir da segunda metade da década. Em Moçambique, assim como em outras então colónias, assistiu-se à intensificação da perseguição política, com prisões, torturas e assassinatos dos “subversivos”, ou “terroristas”, tal como alardeava a terminologia do discurso colonial.

O ano de 1968 é particularmente crítico, tanto a nível mundial como local. É o ano do famoso “Maio de 68” na França, em que a juventude da chamada “contra-cultura” questiona valores morais tidos como pilares da civilização ocidental. No mesmo passo do processo de descolonização em curso no continente africano, a resistência anti-colonial em Moçambique dá um importante passo com a realização do II Congresso da Frelimo, no mês de Julho de 1968, em território moçambicano, no qual o movimento organiza-se ainda mais e define melhor as suas estratégias de luta.  E ainda neste ano, no mês de Setembro, o próprio Salazar, no poder desde 1926, cessa funções como chefe do governo português, após de quatro décadas de mandato ditatorial.

Enfim, é com este pano de fundo que, a 30 de Junho de 1968, inaugura-se o actual Estádio da Machava, agraciado com a honraria de receber duas equipes míticas do futebol mundial. Todos estes aspectos tornam particularmente intrigante o alto grau de desconhecimento (ou “esquecimento”) sobre o evento na memória colectiva, mesmo tomando-se em conta as ilustres ausências. É interessante reflectir sobre o tema a partir das três perspectivas aí envolvidas: a portuguesa, a brasileira e a moçambicana. Em todos os casos, fica-se com a impressão de tratar-se de um tema incómodo, sobre o qual há diversas razões para não trazê-lo ao de cima. Podemos constatar esse dado, salvo engano, a partir da ausência quase que completa de referências à passagem dos 50 anos da partida na imprensa dos três países. 

Porquê, então, o esquecimento? Ou ainda mais precisamente, porquê o silenciamento acerca de um episódio tão rico e revelador das nuances e complexidades históricas dos três países? Mais do que pretender encontrar respostas objectivas  (algo que exigiria um trabalho aprofundado de pesquisa histórica e jornalística), reflectir a respeito contribui para a elucidação de dados importantes que não só ajudam a reconstruir o passado como também contribuem para o debate de temas contemporâneos[7].

IV – Portugal

Do ponto de vista do país responsável pela organização do evento, tem-se a impressão que a rememoração de um acto de propaganda colonial é, em si, algo incómodo, dada a carga negativa intrinsecamente associada. Some-se a isso todo um conjunto de perguntas aparentemente sem resposta, sendo a principal delas a ausência de Salazar num evento internacional “em sua homenagem”. O que levaria, igualmente, ao questionamento da outra ausência importante, a de Eusébio. Mesmo que haja, nos dois casos, justificativas práticas para tal, a impressão que fica é a de que uma série de questões delicadas seriam imediatamente levantadas. Tanto mais curioso é o facto de que no dia 30 de Junho de 2018, ou seja, no dia em que completaram-se os cinquenta anos da efeméride, a selecção portuguesa actuou pela Copa do Mundo[8], o que seria um prato cheio a ser explorado pela cobertura mediática, que costuma aproveitar ocasiões como estas para tal.

No Museu do Futebol Clube do Porto, está exposto um galhardete (“flâmula”, no Brasil) que dá conta da realização de dois jogos entre o clube anfitrião e o antigo Grupo Desportivo de Lourenço Marques (actual Grupo Desportivo de Maputo), disputados no em 1958, há exactos 60 anos[9]. Foram jogos válidos pelas meias-finais da Taça de Portugal daquele ano, em que foram convidadas equipes das antigas colónias para participar da fase final da competição[10]. Acções como essa visavam dar materialidade à ideia de que as colónias eram parte integrante de uma mesma nação, justamente a ideia de continuidade ou comunidade espiritual em relação à antiga Metrópole, conforme pregava a ideologia luso-tropicalista.

Galhardete (flâmula) alusivo aos jogos disputados entre o Futebol Clube do Porto e o antigo Desportivo de Lourenço Marques pelas meias-finais da Taça de Portugal de 1958, a 25 de Maio e 1 de Junho de 1958. Arquivo Pessoal/Marílio Wane

O convite feito às equipes africanas para disputarem a Taça de Portugal sugere um precedente da instrumentalização do futebol para propósitos políticos, isto claro, sem deixar de lado o interesse puramente desportivo da iniciativa. Todo o investimento e a logística implicados no evento dão a dimensão da importância atribuída a realizações desta natureza no contexto colonial. Seria interessante proceder a uma análise dos relatos da imprensa da época, nas colónias e na Metrópole, no sentido de perceber em que medida o engajamento produzido pelo espectáculo contribuiu ou não para o efeito, de acordo com as distintas repercussões. 

V – Brasil

No caso do Brasil, o silêncio sobre o episódio traz outro conjunto de questões delicadas. Para já, é no mínimo notório que num país que produz um alto volume de informação sobre futebol não se mencione um facto histórico relevante sobre aquela que é considerada a sua melhor formação, a que encarna o ideal do jogo caracteristicamente “brasileiro”. Ainda nos dias de hoje, imagens das conquistas das Copas do Mundo de 1958, 1962, 1970 e as mais recentes (1994 e 2002), são repetidas à exaustão durante a programação televisiva. Entretanto, mesmo um brasileiro médio conhecedor do futebol nacional não tem gravadas na sua memória as imagens da Copa do Mundo de 1966, do mesmo período, entre duas conquistas importantes. Aqui, estamos diante de dois fenómenos importantes no processo de construção da memoria colectiva: a repetição constante (para exaltar os feitos positivos) e a selectividade (para “esquecer” o que não interessa lembrar).

Ainda notório desta selectividade, é a ironia de a selecção brasileira ter sido eliminada da Copa de Mundo de 1996 justamente pela equipe portuguesa, pelo placar de 3×1, dois dos golos anotados por Eusébio. Basicamente, eram as mesmas equipes que se enfrentariam dois anos depois, na então Lourenço Marques. Como já referido anteriormente, a equipe brasileira que foi a campo neste jogo é, fundamentalmente, a mesma que se sagraria campeã mundial dois anos depois, no México. Portanto, estamos a falar de uma partida sobre a qual haveria todo interesse em se conhecer os registos, o que por si só levanta outra questão: existem imagens em vídeo sobre o jogo-propaganda-inauguração? E se sim, porque não são conhecidas?

Há ainda outros aspectos. Trata-se da primeira apresentação da selecção brasileira de futebol no continente africano, onde encontram-se as raízes históricas e culturais de cerca de metade da população do país e, significativamente, da maioria dos seus jogadores mais talentosos historicamente. Aqui, coloca-se a questão deste facto não merecer destaque ou registo na construção narrativa futebolística nacional veiculada de forma repetitiva pelos meios de comunicação locais. Com o “agravante” de o evento ter ocorrido em Moçambique, país com o qual compartilha laços históricos e culturais. Enfim, ainda que a título de especulação, este aspecto do silenciamento encaixa-se num quadro mais geral de distanciamento simbólico do Brasil em relação à África contemporânea, operado pelo sistema de ensino e, mais uma vez, pelos media locais.

Do ponto de vista político, o Brasil vivia os primeiros anos de uma ditadura militar, iniciada em 1964 e que enquadrava-se no contexto de um processo mais abrangente e contemporâneo na América Latina. Este dado coloca a questão do significado simbólico e político da participação da selecção brasileira no evento. Para além da excelência amplamente reconhecida no mundo do futebol – o que por si só seria um enorme atractivo para a inauguração do Estádio Salazar – o Brasil era o modelo ideal de sucesso no âmbito da teoria lusotropicalista. Neste sentido, a presença da equipe verde-e-amarela contribuiria para ractificar o discurso da propaganda colonial portuguesa, aliada à admiração natural que a população já nutria pelos seus jogadores[11].

Já em relação ao aspecto prático, de certa forma, a participação brasileira poderia sugerir alguma simpatia ou afinidade com o regime colonial português. Nada surpreendente para um regime igualmente autoritário. Muito provavelmente, reside aí uma das possíveis razões fundamentais para o silenciamento brasileiro sobre o caso: não ficaria bem deixar registada para a História uma provável instrumentalização da selecção nacional para apoio a um regime colonial. Algo, que diga-se de passagem, não seria de todo estranho, uma vez que o sucesso da equipe foi explicitamente usado pelo regime militar para estimular o patriotismo, especialmente depois da conquista da Copa do Mundo de 1970. Está aí uma hipótese mais do que plausível para que não haja muitas referências ao histórico confronto com a selecção portuguesa.

VI – Moçambique

No caso moçambicano, o silenciamento sobre o jogo é tanto mais grave por tratar-se da inauguração do local em que, sete anos depois, foi proclamada a independência nacional. Ou seja, em um local histórico da mais alta relevância, oficialmente reconhecido. Numa primeira tentativa de explicação, temos o significado colonialista do evento em si, que é a própria antítese do simbolismo do que ocorreu sete anos depois no mesmo local. Em outras palavras, a independência veio justamente para suplantar as práticas e os valores sócio-culturais relacionados com a dominação colonial sobre os moçambicanos. Entretanto, apesar das possíveis “razões de Estado”, a realidade do facto histórico permanece e é inexorável.

Há um contexto mais geral, neste caso, que envolve o silenciamento sistemático de diversos factos e situações ocorridos no tempo colonial, no âmbito da construção da narrativa histórica de uma nação independente, a partir de 1975. Daquilo que se pode depreender da historiografia oficial moçambicana, a chamada Luta Armada de Libertação Nacional[12] surge como um verdadeiro mito fundador do país, culminando com a Independência, o “glorioso 25 de Junho”. Sobretudo na primeira década após a conquista da auto-determinação, durante a vigência do regime socialista, a ideologia oficial tratou de consolidar tal narrativa por meio dos discursos públicos, do sistema de ensino, dos meios de comunicação de massa, enfim, por meio da propaganda. De tal forma que muitos acontecimentos do período colonial que não se encaixavam na lógica um tanto maniqueísta do discurso oficial foram relegados ao segundo plano ou ao puro e simples esquecimento.

E, sensivelmente, ainda nos dias de hoje, há muitos factos sobre os quais não há interesse em se trazer à tona, seja pelo seu carácter naturalmente delicado, seja por uma opção ideológica feita num determinado contexto e que ainda reverbera na actualidade. Enfim, seja pelo lapso provocado por acúmulos e sobreposições de silenciamentos que levam a esquecimentos, seja por inércia, ou pela acção do tempo, o dado concreto é que a efeméride completou 50 anos de passagem sem que fosse devidamente assinalada por quem de direito e de ofício. E mesmo que ainda tivesse sido assinalado, um facto desta envergadura deveria constar da memória colectiva moçambicana, futebolística ou não, independente da celebração da data em si. O Estádio da Machava é um património histórico e cultural de Moçambique, cujo historial vale a pena ser conhecido na íntegra, se nem tanto pela pompa e circunstância daqueles que o ergueram, que seja pela arte dos que abriram os seus caminhos.

Eusébio, ausente no jogo, mas eternizado nas ruas suburbanas do Bairro da Mafalala, que o viu crescer. Arquivo Pessoal/Marílio Wane


[1] Actualmente, este posto é ocupado pelo Estádio Nacional do Zimpeto, inaugurado em 2011, por ocasião dos XI Jogos Africanos.

[2] Para todos efeitos, naquele contexto e de acordo com a lógica e o discurso colonial, Moçambique fazia parte de Portugal, como uma “província ultramarina”.

[3] Foi durante o programa “Resenha Espn”, exibido no canal brasileiro de televisão ESPN. Aqui, pode ser ver um trecho, disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=mVDlVDjg5mQ

[4] Embora convidados, não compareceram também não ao evento o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, o Ministro do Ultramar, Silva Cunha e o então Governador-Geral de Moçambique, Baltazar Rebelo de Sousa (pai do actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa).

[5] Entrevista realizada 04 de Abril de 2012, no âmbito de uma pesquisa sobre a Marrabenta, género da música popular moçambicana.

[6] No Brasil, a Gilberto Freyre é atribuída também a criação do “mito da democracia racial”, uma espécie de ideologia racista que contribui para a manutenção do establishment através da negação da existência de preconceito e da discriminação racial no país. Durante a década de 1950, Freyre foi convidado pelo governo português a viajar pelas então colónias e pela Metrópole para difundir a sua teoria em palestras, relatos e publicações.

[7] À época, Eusébio e Mário Coluna viveram situações e questionamentos sobre a sua identidade semelhantes às que vivem actualmente muitos jogadores actuais das selecções europeias que tem origens ou nasceram nas ex-colónias africanas e asiáticas.  

[8] Derrota para o Uruguai por 2 x 0.

[9] Desportivo LM 2 x 6 FC Porto, a 25 de Maio de 1958; FC Porto 9 x 1 Desportivo LM, a 1 de Junho de 1958.

[10] No mesmo contexto, o Ferroviário de Huíla, de Angola também foi convidado a participar da fase final competição.

[11] Aqui, mais uma singela ironia relacionada com Eusébio: quando criança, destacou-se numa equipe de futebol das zonas suburbanas de Lourenço Marques conhecida como os “Brasileiros da Mafalala”.

[12] Refere-se ao período de dez anos do confronto armado entre o governo português e a FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique, bem como todo o processo de mobilização política interna e externa, que culminariam com a independência, em 1975.

*Antropólogo, pesquisador do ARPAC – Instituto de Investigação Sócio-Cultural (Ministério da Cultura e Turismo de Moçambique)

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