SMS 4: ela vai ser minha

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A mão trémula roça a maçaneta que já pinga gotas de ferrugem. O cidadão abre a porta e dá de cara com o termo de chá na mesa. Enfia o telemóvel no bolso e vai directo para a cadeira. Senta, toca na sacola de pão e dela tira um pedaço que lhe sobrou. Enche a chávena de água quente, adiciona seis colheres de açúcar para adoçar a vida que anda amarga. A última colher vai directo para a boca e fecha os olhos para sentir a glicose a diluir-se entre a língua, os dentes e saliva.

Movimenta o órgão muscular para espalhar milimetricamente o sabor, enquanto vai puxando a saliva aos poucos até atingir o êxtase da doçura. Deu quatro trincadas e o pãozinho acabou. Sobra-lhe a chávena com água quente. Toma o chá calmamente. É um cidadão da vida, sabe que aquele líquido relaxa a mente, os músculos e auxilia o intestino a triturar melhor os alimentos. Mas que alimentos?

Contra toda a força de vontade, o chá está quente. Com todo desejo, o estômago precisa de mais comida. Levanta-se, caminha em direcção ao fogão, tatea a panela com delicadeza. A comida é sagrada e o seu recipiente precisa de mais sensibilidade nos dedos de quem o visita. O cidadão percebe que a panela brilha, os restos de comida foram limpados com mestria. Coça a barba e, com a mente, aplaude o talento da irmã nessa arte de restituir a beleza à louça.

Volta para a mesa. Enfia a colher na tigela de açúcar e adocica ainda mais o chá. “Esta substância dá força e fortalece a mente”, pensa. Barriga empanturrada, sono leve, cama…

8 de Setembro, 16 horas, 38 minutos, 46 segundos. O candidato termina o discurso de campanha. Desce do palco e respira de alívio. Desfaz o nó da gravata e o botão, desapruma com uma mão e a outra enxuga o suor que ensopa o seu rosto dançante.

Os passos largos que dá em direcção ao Mercedes-Benz são, muitas vezes, interrompidos por simpatizantes que beijam e abraçam o imperador. Os guardas não conseguem impedir com que essa gente insignificante toque o senhor.

Mas, em pouco tempo livra-se deles e segue a marcha. A barriga, que se agita ao som desconhecido, espreita da camisa e abre a porta do carro. Para trás ficam as promessas de um futuro brilhante que augura para os seus. Rasga o sorriso, sabe que o voto de confiança já foi depositado pelo partido. Iniciam as sirenes. Aplaude, acena para a multidão, sorri e desaparece.

O cidadão sabe que a festa está só no começo. No meio a multidão, disputa o espaço para chegar mais perto do distribuidor de camisetes. Luta, empurra, cerra os dentes e quanto mais o tempo passa, mais longe fica da fonte. Então desiste. Segue outro rumo, percebe que há um outro aglomerado que mede forças pela cerveja. Com paciência, vai chegando aos poucos, cumprimenta a todos com a saudação partidária, beija a mão das moças, acena para os homens e junta as mãos à espera da sua cerveja.

E ela chega. Duas, cinco, o ponteiro acelera! Adocica as palavras do cidadão e libera a coragem. Ele pisa o chão com civilidade, acalma a poeira e caminha em direcção à roda de dança que brota a alguns metros.
Segura a garrafa pelo gargalo, dá dois goles e relaxa. Os olhos brilham e sente o líquido a relaxar o estômago.
Estaciona os pés ao lado de cinco rapazes que contemplam duas meninas a simularem movimentos dançantes no meio da roda.

A emoção é maior. Uma delas aproxima-se do cidadão. Mete a mão no seu bolso, ajeita o seu boné vermelho, depois arranca a cerveja da sua mão, dá dois goles e regressa à pista.
O cidadão contempla as curvas da felicidade. Saliva, abana a cabeça ao som, simula passos de dança enquanto se dirige à moça para arrancar-lhe a garrafa. Na primeira oportunidade, pega-lhe pela cintura e sussurra no seu ouvido: “a gelada foi tua, mas tu hoje serás minha!!!…

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