O engano da boa aparência

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‘‘É só andar, mestre’’, grita o cobrador em voz forçada em meio ao entulho de gente que ele mesmo amontoou. Os comandos viajam pelas poucas quantidades de ar que sobram no local, contáveis com os dedos de uma mão, e chegam aos ouvidos do motorista, que se empenha na sua dupla função: a de conduzir com flexibilidade, para ganhar tempo em relação aos seus concorrentes, e a de certificar-se de que o chapa ande sempre cheio, para garantir a receita diária. Ao escutar o seu companheiro do dia-a-dia, o Homem do volante tira os olhos da estrada por alguns segundos e repara no retrovisor interno, procurando mesgas de espaço onde possa encaixar pelo menos mais uma pedra.

‘‘Mas a mova au talanga (Mas o carro não está cheio)’’, reivindica, causando uma avalanche de reclamações por parte dos passageiros. Foi a partir deste instante que se iniciou um duro embate que colocou em arena duas correntes completamente opostas a degladiarem-se. Em poucos minutos, a viagem bipolarizou-se. Alguns, sobretudo os que sentiam no corpo os efeitos  colaterais de percorrer quilometros de distância inclinados num pequeno compartimento de um semi-colectivo de passageiros, tornam-se discípulos fiéis do cobrador, passam a adorá-lo, amplificam os seus dizeres e o atribuem o título de líder de resistência. E outros, os entendedores das razões por detrás do posicionamento do motorista, apoiam a teoria da lotação máxima, apesar de perceberem os seus riscos. Conhecem o grau de dificuldade que qualquer labutador enfrenta quando chega à casa, depois um dia inteiro de trabalho inprodutivo, sem o dinheiro do pão para o dia seguinte, e vê-se obrigado a arranjar soluções (por vezes drásticas) para mudar o cenário.

A viagem segue, o motorista avista um movimento exacerbado de passageiros na próxima paragem, reduz a velocidade e pisca duas vezes, dando sinal de que cabe mais alguém. Antes de estacionar na berma da estrada, dá uma última olhada no retrovisor, e detecta um canto onde podem caber dois apressados corajosos. Pára o carro, o cobrador, de costas para o exterior, abre a porta e alguns corpos são cuspidos do chapa, expulsos sem justa causa e saltam inconscientemente para o passeio.

‘‘Senhor, sabemos que precisa fechar a receita, mas o carro está cheio de verdade.’’ Ouve-se a voz grave de um Homem masculino, impaciente e a beira de um ataque de nervos.

 Acostumado a lidar com todo o tipo de gente, o motorista ignora e faz o seu trabalho.

‘‘Tchapo! Tchapo! Cobrador, djindja aqui atrás da minha cadeira’’, Ordena.

‘‘O senhor não está a me ouvir?’’, repete o Homem desgastado, num tom de ameaça.

O motorista finge não ser o destinatário da questão, empenha-se no seu ganha pão e vai dando orientações para os passageiros mais mansos se acomodarem para que a viagem possa seguir.

‘‘Por favor, dá-me licença. Quero falar com este senhor de Homem para Homem’’, berra o passageiro grevista decidido a ir até às últimas consequências para se impôr e fazer justiça, nem que seja com as próprias mãos. Na medida em que o Homem se aproxima, a sua voz vai ganhando mais volume aos ouvidos do motorista que insiste em se manter em silêncio, diante do perigo que se aproxima. Curioso, o cobrador espreita pela janela para saber quem é este que não pára de falar. Trata-se, afinal, de um tipo vestido formalmente: gravata no lugar, camisa de seda, calças caqui e sapatos castanhos. O Homem respira elegância, responsabilidade e conhecimento.

Chegado perto do motorista, o Homem arde em chamas, cospe fogo, fica mais nervoso e ganha cada vez menos simpatizantes. Muitos passageiros estão apressados, sem tempo para desaforos e  já a formular mentiras plausíveis para justificar o atraso nos seus postos de trabalho. Portanto, pretendem chegar aos seus destinos o mais rápido possível.

‘‘Diminua as pessoas ou eu vou descer aqui sem pagar’’, sentencia.

O chapeiro vira-se para ele, ficam frente a frente a se despresar. ‘‘Pessoa quendo estudou’’, pensa, mas ao mesmo tempo questiona o seu próprio destino. Imagina que se não tivesse gazetado as aulas no seu tempo de escola, hoje seria ele a espizinhar um chapeiro, ou melhor, nem sequer tomava um chapa. Contudo, mantem a via da indiferença para não perder o respeito por pessoas importantes, ainda que desconhecidas.

‘‘Estamos a pedir andar’’, gritam os restantes viajantes.

‘‘Pode descer, meu senhor, queremos andar’’, fala, com todo o respeito e devoção, pois vê-se diante de um académico. A julgar pelas roupas, muitos podem ser considerados gestores de grandes empresas, PhD’s, ou mesmo grandes pesquisadores de renome. O Homem apressa-se para se retirar do chapa, porque aquela paragem era exatamente o seu destino. Aquele drama todo terminou em glória e poupança dos 10 Mt para comprar megas. Orgulha-se da sua sorte grande, é pela terceira vez que a batota da boa aparência funcionou.

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