Duas noites e uma manhã

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Uma noite.

Abro a porta de casa e sou recebido pelo silêncio a fazer carícias ao medo, no meu sofá. 18.47. A sala está escura, as janelas abertas recebem os mosquitos da chuva recente, brotam no jardim. Nem um fiapo de luz. Não quero incomodar o medo, lentamente ergo o braço rumo ao interruptor, acendo a lâmpada. Mecanicamente ligo o televisor. Fecho as janelas. Deixo um filme a correr.
Seguro a maçaneta da porta do quarto e contorno-a. Entro para o quarto com a vida entre os dedos. A morte está na palma da minha mão, pode ter chegado pelos trocos do chapa, do bêbado que tombou sobre mim, da senhora ao lado, de…de…de…
Acendo a luz, encaro-me no espelho e, de súbito, descubro um riso nos lábios, olhos cansados, pálpebras teimosas, renitentes. O meu reflexo recorda-me: se ouviste o tiro é porque estás vivo.

Outra noite.

Nada será como antes, amanhã

Outra noite, exausto, já sem máscara, ouço os trincos da fechadura obedecendo a força da mão direita que, mecanicamente, abre a porta de casa. “Night calls”, um lo-fi japanese de blackguyrender nos headphones. A luz está apagada. A sala está escura. O televisor está desligado, só o silêncio é que estatela-se no sofá, a contemplar-me. Não há ninguém a chamar pelo meu nome, ninguém me espera. Só o silêncio é que me contempla. Os headphones já estão desligados. Fecho as janelas, pego no isqueiro e acendo um incenso.
Exprimo a melancolia que, repentinamente, tomou-me. Reproduzi “nada será como antes”, de Milton Nascimento. “Num domingo qualquer, qualquer hora, ventania em qualquer direcção, sei que nada será como antes amanhã de manhã”. Podia ser uma música de vitória mas é um trago amargo. É uma música sobre ausência. Nela encontro saudade, a brisa gelada dos azulejos abraça-me, envolve o meu corpo. O vento vem com as vozes que parecem trazer mensagens crepitadas (?). Olho para cama e o oásis ganha a forma do corpo dela, contornado pelos lençóis. Não consigo decifrar as mensagens emitidas. E exprime a melancolia, igual faz-se com o pus do furúnculo para que a dor vá embora mais rápido.

A manhã.

Que notícias me dão dos amigos?

Laranjinha? O Laras? O Edilton?

Estupefacto, saltei da cama, liguei para o Idilson e sem meias voltas: what?

Infelizmente, sim. A voz do Idilson tinha o peso de toda incredulidade que nos tomou. É a realidade a enfiar-nos uma navalha na boca do estômago.
As lágrimas que percorriam-me o rosto, regavam as flores que não te ofereci vivo. Que validade têm agora?
Viver é acumular cicatrizes e seguir caminhando. E cada vez que alguém querido morre, já tinha escrito Rubem Alves, uma parte de nós morre também. Uma parte de nós é asfixiada.
No quotidiano, os nossos sonhos berram todas as manhãs, movem os nossos corpos. Infelizmente não se guarda os problemas no cabide, andam connosco. Eduardo White é que era fodido, deixava o poeta em casa quando ia trabalhar. Mas o resultado é que terminou sem emprego. Poesia lá é emprego? Há salário que pague a alma de um poeta? A poesia é este sopro a que chamamos vida.
Suportamos os desafios do quotidiano na expectativa, na fé, na esperança, na crença. Planeamos. Para quê? E a eterna pergunta: qual é o sentido da vida?
Laranjinha foi luz, um presente para todos que tiveram o privilégio e a bênção de descobrir que os anjos não são meras invenções. Já não choro, te celebro. Sou grato pela tua lição de humildade. Ao teu ser sereno, tranquilo. A tua aura.
Cresci ouvindo que os bons morrem cedo. Abraço-te.

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