SMS 2

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Ainda na cama, a barata invade a manta e beija os dedos do cidadão. Ela também tem desejos, sente fome, sente medo… O cidadão acorda sobressaltado, irritado com o pequeno insecto perturbador. Olha para o pequeno ser que o encara, cerra os dentes enquanto vasculha pelo chinelo. E depois pára e pensa-mas que animalzinho asqueroso- conversa consigo mesmo. A vontade que tem é de esmaga-lo, estilhaça-lo, reparti-lo em milhares de pedacinhos.

Mas, a barata, insensível aos problemas da humanidade, pisca para o homem, dá meia-volta, enfia-se entre a cama e a parede, e desaparece. O cidadão levanta. São 07 horas da manhã de Sábado, o dia ainda está um bebé que não sabe qual será o seu destino. Vai à sala de estar, abre a geleira e pega uma garrafa de água, serve num copo e bebe. O cidadão fecha os olhos e sente a água gelada a descer-lhe goela abaixo, viaja pela memória e vai poisar na esquina do vizinho, onde costumava tomar duas para relaxar.

No seu imaginário puxa a cadeira e senta. Tira o móvel do bolso, a carteira, fita os outros que estão a matar a sede no mesmo lugar e aguarda pela servente. “Uma cerveja, por favor”, ordena. Enche o líquido no copo, saúda os antepassados com duas gotículas no chão, pede-lhes paz e bênçãos. Sorri, como se outro ser sobrenatural o tivesse respondido com satisfação.

Leva o recipiente até à boca, tira a língua e sente o sabor da cevada. O cidadão mantém o copo naquela posição, degusta do cheiro da gelada, respira fundo e busca sentir todos os prazeres possíveis antes do primeiro gole. Pousa o copo na mesa. Suspira, com a outra mão tira o lenço do bolso e limpa o suor que ensopa a testa.

Leva de novo o copo à boca e sorve o líquido num trago. Sente uma paz interior e volta a servir. Agora, com mais vagar, sente o sabor da cerveja, mexe no celular e começa a procurar o contacto daquela pita. Quando tenta ligar, o pensamento puxa-o de volta para a realidade. Frustrado, aperta a garrafa de água e resmunga. Do canto da sala, uma voz chama-lhe à razão. “Mano, preciso vestir”.

Abaixa a cabeça, bate a retaguarda, cumprimenta a irmã, pede desculpas e regressa ao quarto. Liga o rádio. “640 Milhões de Meticais para o pagamento de subsídios de reintegração”. O cidadão pega o celular e entra no Facebook. Percebe que o debate está acesso entre posições e opositores, frustrados e visionários, agentes da mão externa e patrióticos, cidadãos de gema e reaccionários, críticos e justos, entre os que querem lugar na mesa e os que já estão com a faca e o queijo.

O cidadão tem Megas em dia, não demora e começa redigir uma mensagem, responde a todos os que ousam questionar o sistema, toma as feridas dos compatriotas da revolução e golpeia a todos que lutam contra o desenvolvimento do país, um por um.

Missão cumprida. Deita-se na cama, coça a cabeça e começa a visualizar as mensagens em seu inbox.

“A luta continua, camarada, não te esquecemos. O objectivo é aniquilar esses cães raivosos”. Ele sorri e agradece. Outro boss assegura-lhe: “estás nas nossas prioridades, próximo mandato entras”.

Recebe outra SMS, da operadora, “ficaste com 16 MB da tua oferta de internet”. Desliga os dados. Já são 12 horas.

Volta à sala de estar e aguarda pelo almoço. Pensa no futuro enquanto a irmã serve-lhe os restos do jantar de ontem, come, limpa a boca e sente que há um lado do estômago que continua vazio.

Pega no remote control e visita os canais um por um, fica entediado. Adormece para enganar a fome e o tempo.

E o tempo voa. Desperta, já são 18 horas. Pega as sapatilhas e vai praticar exercícios físicos. Está na praia do Costa do Sol, olha com satisfação para o seu novo visual, saca o telemóvel do bolso, tira uma foto e actualiza o status. “A praia está maningue nice, dá gosto de estar aqui sem essas barracas”.

Perde o interesse pela corrida e começa a caminhar. Lança o olhar para o mar, vê que se agita, fixa os olhos nele, nota que bem ali nas bermas há um homem que dialoga com o além. Aproxima-se e, antes de proferir sequer uma palavra, uma voz lhe evade os tímpanos: “queres domar qual azar?”…

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