Que música ouvir neste tempo de crise?

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Escrito por Mario Forjaz Secca

Recentemente a revista “Literatas” pediu-me para responder a um conjunto de perguntas relacionadas com esta época de crise mundial e isolamento em que vivemos. Nesse conjunto constava a seguinte pergunta: “Que livros ler neste tempo de crise? Que músicas ouvir? Que filmes ver?”

Na minha resposta comecei por dizer que os livros que devemos ler neste tempo de crise são os livros que devemos ler em qualquer tempo. E penso o mesmo com respeito à música. A boa música é sempre uma música boa, e pode e deve continuar a ser ouvida sempre!

Contudo, neste tempo de isolamento temos muito mais disponibilidade para ouvir música, porque temos mais tempo livre. E há tanta música boa para ouvir e reouvir! Voltar a ouvir aquelas músicas que nos emocionaram e nos tocaram é um bálsamo essencial, aquelas músicas que tanto ouvimos e que acabam por fazer parte de nós! E também redescobrir músicas novas, músicas que serão as nossas músicas para o futuro. E para quem gosta de dançar, ouvir músicas para dançar e dançar sem limites em casa é uma proposta convidativa.

Mas mais do que ouvir, o que é realmente bom nestes momentos é tocar música! Infelizmente quando regressei a Moçambique não trouxe o meu piano e sinto muitas saudades de me sentar ao piano e deixar a música sair. Fiz isso regularmente ao longo da vida e neste momento de isolamento mais vontade me dá, não podendo infelizmente o fazer agora. Contudo trouxe a minha flauta e vou tocando de vez em quando. Para quem tenha um instrumento, como uma guitarra, um batuque, uma flauta, um piano, ou outra coisa, e os saiba tocar, estes momentos de clausura são momentos fantásticos para tocar, deixar sair a música que temos dento de nós, libertar essa criatividade musical.

Mas não me dispersando, como a pergunta que foi feita é “Que música ouvir neste tempo de crise?”, deveria falar de algumas músicas que gosto e que recomendo que ouçam nesta altura. Gosto muito de música e de muitos tipos de música. Tenho um gosto musical eclético e abrangente e penso que existe muito boa música em muitos géneros musicais. Vou por isso passar por vários tipos de música e sugerir a audição ou re-audição de vários álbuns que fazem parte da minha memória musical, concentrando-me apenas nalguns que acho essenciais e emblemáticos, para não ocupar muito tempo.

Começo, como não podia deixar de ser, por música moçambicana e pelas minhas origens musicais moçambicanas, que são Dilon Djindji. Como natural de Maputo, a marrabenta entrou-me no sangue desde muito cedo e quando ouvi Dilon Djindji a primeira vez com os meus 15 ou 16 anos fiquei fascinado. Ainda hoje á fantástico e vale a penas ser reouvido! Dos músicos mais recentes, não posso deixar de mencionar quem eu considero o melhor guitarrista moçambicano do momento: Albino Mbie. Este músico vive nos Estado Unidos, onde estudou na “Berklee School of Music” e tem dois álbuns muito bons: “Mozambican Dance” e “Mafu”.

Passando à música africana, começo por Cabo Verde e o genial Bau com o seu álbum “Tôp d’Coroa” que ouvi tantas vezes que quase gastei o CD! O outro clássico cabo-verdiano é o “Miss Perfumado” da Cesária Évora.

Seguindo para África em geral o meus clássicos são “Eté” de Baka Beyond, o magistral “The Mandé Variations” de Toumani Diabaté, o “Timbarma” de Ali Farka Toure, o “Wakafrica” de Manu Dibango, e os álbuns de Hugh Masekela e dos Ladysmith Black Mambazo, que me fazem arrepiar a pele com a vibração da música coral do sul de África. E por fim um grupo de fusão afro-caribenho chamado Osibisa que tem dois álbuns marcantes: “Osibisa” e “Woyaya”.

Saltando agora para o jazz e música internacional de improvisação, os meus clássicos são o “African Piano” de Abdullah Ibrahim, os “In a silent way” e “Kind of Blue” do incontornável Miles Davies, o concerto de piano solo improvisado “Köln Concert” e o “Facing You” de Keith Jarrett, o lindíssimo “Oregon” dos Oregon, o “My Spanish Heart” do Chick Corea, o “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls” de Pat Metheny, os “Dança das Cabeças” e “ Sol do Meio Dia” de Egberto Gismonti, o “Barzakh” de Anouar Brahem, os “Codona 1”, “Codona 2” e “Codona 3” dos Codona, o “Madar” do Jan Garbarek, o “Memphis Underground” do Herbie Mann, o “Ocean” do Stephan Micus, o “Palatino III” de Aldo Romano e Paolo Fresu, o “Plains” de George Winston, o “Saudades” de Naná Vasconcelos e o “Vision” do Shankar.

Do jazz passo ao rock e música popular, começando pelos mais marcantes na minha vida: “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “Abbey Road” dos Beatles, “Thick as a Brick” dos Jethro Tull, “Electric Ladyland” dos Jimi Hendrix Experience, “Abraxas” dos Santana, “Emerson, Lake & Palmer” dos Emerson, Lake & Palmer, “A Saucerful of Secrets”, “Obscured by Clouds”, “Dark Side of the Moon” e “Wish You Were Here” dos Pink Floyd, “Waka/Jawaka” do Frank Zappa, “Three Friends” dos Gentle Giant, os quatro álbuns I, II, II e IV dos Led Zeppelin, “Harvest” do Neil Young, “Ricochet” e “Stratosfear” dos Tangerine Dream, “Before and After Science” do Brian Eno, “Paris, Texas” do Ry Cooder e “Cobalt Blue” de Michael Brook.

E dentro do género de cantautores os álbuns que me acompanharam são os “Songs of Leonard Cohen”, “Songs of Love and Hate” do Leonard Cohen, os “Blonde on Blonde” e “Blood on the Tracks” de Bob Dylan, “Cold Fact” do Rodriguez, “Solid Air” do John Martyn e “The Living Road” da Lhasa.

Na música portuguesa cresci com o José Afonso e quatro dos seus álbuns magistrais: “Traz Outro Amigo Também”, “Eu vou ser como a Toupeira”, “Venham Mais Cinco”  “Cantigas do Maio”. Há muita outra música interessante em Portugal, mas vou apenas referir um álbum que acho especial: “Por Este Rio Acima” do Fausto.

Quanto à música brasileira as referências são tantas que é difícil destacar apenas dois ou três, mas regresso regularmente a “Transa”, “Jóia”, “Bicho” e “Cinema Transcendental” de Caetano Veloso, “Minas”, “Clube da Esquina” e “Clube da Esquina 2” de Milton Nascimento, “Construção” de Chico Buarque, “Expresso 2222”, “Refavela” e “Refazenda” de Gilberto Gil, “São Demais Os Perigos Desta Vida” e “Toquinho & Vinícius” de Toquinho e Vinícius de Moraes, “Gita” de Raul Seixas, “João Bosco Ao Vivo 100ª Apresentação” de João Tosco, “Rose and Charcoal” Marisa Monte, “Tribalistas” de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, “Ihu – Todos os Sons” de Marlui Miranda e “A Fábrica do Poema” de Adriana Calcanhoto para mencionar apenas alguns.

Por fim como música clássica, os meus companheiros especiais as “6 Suiten fur Violoncello Solo” de Bach tocadas pelo Pierre Fournier, o álbum de guitarra clássica  “Recuerdos de la Alhambra” do compositor Rodrigo interpretado por Narciso Yepes, o “Für Alina” de Arvo Pärt, a “Carmnina Burana” de Carl Orff, os quartetos de cordas de Beethoven tocadas pelo Melos Quartet e as sonatas de piano de Mozart tocadas por Maria João Pires.

As sugestões são muitas e variadas, mas é assim que eu ouço música. Vejo como me sinto e que tipo de música me apetece ouvir, recordo-me de alguns nomes e vou ao computador pôr a música a tocar. Quando me sinto com menos inspiração vou passando os olhos pela lista de músicas que tenho até haver alguma que me chame a atenção e me faça entregar à música para me preencher!

Espero que estas sugestões possam servir para levar alguém à descoberta de novos prazeres musicais ou ao prazer de voltar a ouvir músicas esquecidas ou perdidas.

Biografia de Mario Forjaz Secca

Nasceu em 1957 em Moçambique, onde viveu até aos 17 anos, tendo aí aprendido a sonhar e sido contaminado pela Poesia e pela música. Foi de seguida para Inglaterra estudar Física, apesar de passar grande parte desse tempo imerso a ler e escrever poesia e a ouvir e tocar música. Depois, fascinado pela viagem, passou 8 meses em 1986 a dar a volta ao mundo sozinho. No final da périplo foi para Portugal onde passou muitos anos a ensinar na Universidade e a fazer investigação em imagem médica, particularmente sobre o cérebro. Em 2016 regressou a Moçambique para reviver as origens e o amor.

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