SOCORRO DE EMERGÊNCIA

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Escrito por Elcídio Bila

Teve vontade de gritar, clamar pelo socorro, mas preferiu um grito silencioso. Lá da sala, como se fosse um outro planeta, onde não há coronavírus muito menos crise conjugal, vinham as melhores risadas e disputas pelo remotecontrole. Não podia os despertar, seria pior, pensou Marito, ainda que a sua vontade fosse contrária.

Correu com a mão ao peito da esposa. Alívio! O coração não tinha parado e pequenos flashes de respiração vibravam das suas narinas. 

Foi à cozinha, imediatamente. Procurava um pano com água. Passou pelo rosto da Maria, delicadamente. A cada passeio o pano regressava com uma porção de sangue. Parece que ela usou no mesmo telemóvel que conversava com o amante para se livrar do mundo. Descontou maus pensamentos, o marido, apenas cuidava dela, como já foi cuidado uma data de vezes.

Lembra como ela sempre foi atenciosa e companheira: no dia em que o carro que seguia viagem a Bilene capotou e quase perdia as pernas por causa de uma farra entre amigos foi ela quem cuidou dele, até os médicos se renderem e decidirem que a sua fisioterapia estava de bem a melhor, e não havia necessidade de amputar uma das pernas que tinha sofrido uma lesão grave.

Foi por conta desse acidente que ele parou de trabalhar e, dando a volta por cima, abriu uma pequena fábrica. Ou seja, ele só é empresário porque a esposa deu-lhe forças para continuar a andar. É nisso que pensa enquanto ajeita a sua amada, trocando-lhe de roupa e arrumando o seu cabelo pomposo.

Depois de a ter embelezada, como ela nunca conseguiu a si própria, ainda inconsciente, Marito carregou-lhe para cama e iniciou uma jornada de pedido de ajuda.

Foi na quarta chamada que o socorro veio lhe visitar.

– Primo!

Gritou uma voz densa lá do portão.

– Pai, está alguém. – denunciaram as crianças.

– Pede para entrar, é o tio Sérgio.

– Não, não pode entrar.  impediu Wilma, inocente.

– Tem coronavírus, pai. Esqueceu? – ajudou Wezz a irmã.

Decidiu ele mesmo ir buscar pela ajuda, limitando o tempo para conversa fiada:

 Comé?! Peço para lavar as mãos e vamos entrar.

– O que se passou afinal? – questiona, Sérgio, a imagem da Maria na cama.

– Ajuda-me a levá-la ao carro depois te conto.

Ele segurou-a pelas mãos e o primo os pés, seguindo para a viatura estacionada logo à entrada.

Estavam quase para atravessar o porta quando a Wilma cometeu um erro: virou-se. 

– O que se passa com a mamã?

– Morreu? – questionou o outro, bruto.

– Nada disso, está doente. – respondeu Sérgio, desaparecendo dos dois curiosos.

– E porque não abre os olhos? – a pergunta ficou a pairar no ar, pois não havia quem a amparasse. Só minutos depois, lá de distante, chegou a voz autoritária de Marito:

– Tranquem a porta. Não saiam de casa e não abram para ninguém. Voltamos já!

(…)

– Então, amor, como te sentes?

– Onde estou?

– Estás no hospital.

Olharam-se demoradamente, enquanto ele acariciava as suas mãos.

– Desculpa!

– Esquece isso, apenas tens de melhorar.

Já tinham sido feitos os devidos curativos e tinha recebido soro e oxigénio, faltava apenas que se curasse do acontecido. Essa dor…, que explodia do peito feito uma granada, não há nenhum hospital capaz de se atrever.

– Que horas são?

– Já são 23 horas.

– Os meninos?

– Pedi a Kita que os levasse para casa dela.

Ela olhou para o marido aflita.

– Não tinha outra opção, não podia lhes levar connosco.

– Tens razão. – consentiu ela, ainda com a voz carcomida.

Nesse instante, entreva para a sala de cuidados intensivosuma enfermeira.

– Já tem alta, não precisa ficar aqui. 

– Por que não? O médico disse que lhe vai observar novamente amanhã cedo.  reivindicou Marito.

– É melhor irem para casa, para o vosso bem.

– Como assim, enfermeira? – intrometeu-se Maria.

– O médico que vos atendeu foi diagnosticado coronavírus, assim todos que estiveram com ele devem entrar em quarentena obrigatória, imediatamente. Logo…

– Não é possível. – irritou-se Marito.

– É melhor irem para casa e se isolarem de todos.

– Mas como ele atende as pessoas nessa situação? – questiona a acamada.

– Ele não sabia. Às vezes o coronavírus não tem sintomas.

– Mas nós temos filhos pequenos.  denunciou Maria.

– Devem os deixar noutro sítio, convosco não podem ficar.

Antes de abandonarem o hospital, a enfermeira recomendou:

 Daqui  14 dias venham fazer o teste e caso tenham algum sintoma corram para o hospital.

Marito pescou-lhe com os olhos esbugalhados de raiva, enquanto saíam do hospital, já a rigor, com luvas e máscaras.

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei da intenção do artigo,sou não gostei do facto de ser uma narrativa aberta gosto de história com desfecho, assim não deixam muitas perguntas sem respostas no ar

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