Exposição retrata as faces da empregada doméstica

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NUM certo dia de 2015, o fotógrafo português Ricardo Franco estava na casa de uma amiga. Chamou pela empregada e notando que ela não respondia, foi à cozinha, onde a encontrou com um espelho na mão, a passar batom nos lábios. Era um contraste com a mulher de bata e lenço que via noutras ocasiões.

“Foi nesse episódio que nasceu a inspiração para retratar o mundo das empregadas domésticas”, disse, contando a origem da exposição patente no Centro Cultural Franco Moçambicano, em Maputo. A mostra é intitulada “Se me quiseres conhecer”, sob curadoria de Miguel Rego.

Essa imagem despertou-lhe a consciência. É como se tivesse acendido a luz para o facto de que estas mulheres viajarem, diariamente, por dois mundos: Maputo-Cimento e Maputo-Caniço.

A esse momento, acrescenta Ricardo Franco, associa-se o facto de sentir uma necessidade de, por ter vivido em diferentes contextos, trazer à superfície os fossos sociais.

“Há cada vez mais ‘uma distância’ entre os mais ricos e os mais pobres e encontrei neste trabalho uma forma de me expressar e tentar contar esta história desta dicotomia”, prosseguiu o fotógrafo.

Em 2016, fotografou a primeira empregada, de nome Otília, com quem passou o dia, na casa do patrão. A acompanhou no “chapa” até ao bairro Patrice Lumumba, onde ela mora. Lá registou outra parte da rotina de uma das mulheres que integra o grupo de sete expostas em “Se me quiseres conhecer”.

Até 2019, o projecto ficou na gaveta por razões de trabalho e quando o Centro Cultural Franco-Moçambicano abriu candidaturas para artistas exporem e terem apoio, o seu foi aceite. O desafio era terminar a tempo de coincidir com Março, o mês da mulher “e a minha previsão era Outubro”, revelou-nos.

“Fui entrando nas casas das pessoas com quem falei para materializar a ideia”, contou. A intenção já era uma mostra que fosse capaz de gerar debate, estimular um questionamento à sociedade.

O resultado, continuou, é um documentário em forma de fotografia, uma reflexão fotográfica.

“A minha ideia é uma fotografia documental, ou seja, não interfiro, não forço a nada na ‘modelo’, apenas acompanho aquilo que faz todos os dias e eu ando como um ser que ninguém dá por ele”, explicou o expositor que reside no país há dez anos.

No processo de recolha de dados, Ricardo Franco afirma ter encontrado nas protagonistas, narrativas de vida compostas por desafios diários. “Algumas estão em casa de ministros, de directores e no final do dia voltam para a pobreza dos seus bairros, com aquela coluna a fazer barulho, os putos a correr, acredito que são um poço de formação”, conta.   

Cristiana Pereira, jornalista e editora da Revista Indico, que assina o “preâmbulo”, observa que “Se me quiseres conhecer” é uma exposição em que sete empregadas domésticas, como que nos pegando pela mão, vão abrindo portas para conhecermos diferentes dimensões de um mesmo espaço geográfico social e económico.

Tendo o quotidiano destas mulheres, como pano de fundo, as imagens convidam o espectador a mergulhar nos seus contextos pessoais e profissionais.

“Se me quiseres conhecer”, escrevia Noémia de Sousa no poema homónimo de 1958, “estuda com olhos de bem ver”. E o Ricardo quis. E estudou. Estudou estes dois mundos que diariamente se cruzam, mas até que ponto se conhecem?”, lê-se no referido documento.

Ricardo Franco nasceu no Alentejo, Portugal, em Agosto de 1980. É autodidacta na arte da fotografia. Mais virado para a reportagem de rua, da captação da realidade pura. Entre 2003 e 2004 viveu na Guiné-Bissau, documentando o seu trabalho como professor voluntário no interior do país. Em 2009, ruma a Moçambique. É aqui que decide abandonar o ensino para se dedicar à fotografia.

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