Breve Historial do Clube do Livro

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Por Nataniel Ngomane

Breve Historial do Clube do Livro

Por Nataniel Ngomane

Hoje, 16 de Novembro de 2019, é o primeiro aniversário dos encontros do Clube do Livro. Primeiro aniversário, na verdade, dos encontros do Clube do Livro de Maputo, marco inicial do surgimento do(s) Clube(s) do Livro em Moçambique. Ao longo desses doze meses foram surgindo vários outros Clubes do Livro em diversas regiões do país, totalizando hoje dezasseis (16), com, aproximadamente, 700 membros ao todo. Desse total, Maputo tem o maior número de registados, 138, seguido do Clube do Livro da Escola Secundária Santa Maria de Namuno, em Cabo Delgado, com 135 membros. O Clube do Livro da Beira, em Sofala, situa-se em terceiro plano, com 81 membros, seguido pelo de Nampula, nessa cidade, com 60, de Milange, na Zambézia, com 43, Chitima, em Tete, e da Escola Primária e Secundária SOS Herman Gmeiner, em Maputo, ambos com 30. Inhambane, em Inhambane, Escola Secundária Comunitária Polana Caniço B, em Maputo, e Xai-Xai, em Gaza, possuem respectivamente 26, 25 e 20 membros registados; Vilankulo, em Inhambane, tem 22, e Quelimane, na Zambézia, tem 18.

Ainda com poucos membros, relativamente, estão os Clubes do Livro de Namacurra, na Zambézia, Matola, nos arredores de Maputo, e Massinga, Inhambane, com 18, 13 e 12 membros, respectivamente. Por dificuldades de comunicação com a sua coordenadora, não conseguimos reunir os dados respeitantes ao Clube do Livro da Escola Secundária Eduardo Mondlane, do Bairro Ferroviário de Maputo.

Entretanto, já recebemos manifestações de interesse e pedidos de apoio sobre as formas de criar um Clube do Livro, da Ilha de Moçambique – neste caso, associadas a professores da Universidade Lúrio –; recebemos também da Katembe, Inhaka, Namaacha, Moamba e Manhiça, na província de Maputo; de Chimoio, em Manica, e Tete, em Tete, além de duas a três escolas da região da Matola, também em Maputo. Se, por um lado, pode-se apontar a dificuldade de reunir leitores dispostos a terem encontros regulares de leitura e troca de impressões como estando na base da demora na criação desses Clubes, por outro, também a falta de livros, sobretudo nas escolas, é outro factor que, acreditamos, poderá vir a ser ultrapassado, inclusive, com o apoio de algumas parcerias que têm dado sinais positivos.

Até agora, o Clube do Livro de Maputo já recebeu cerca de 700 livros doados por entidades diversas, cuja finalidade é de distribui-los pelos clubes mais necessitados, faltando, neste momento, fazer o devido registo e catalogação. O Clube já possui o carimbo para o efeito.

Mas, comecemos pelo princípio: como surge o Clube do Livro?

A Ideia do Clube do Livro

A ideia do Clube do Livro surge no Songo, em Tete, durante uma conversa com um amigo e irmão, Tiago Milheiro, no âmbito da VIIª Edição da Feira do Livro do Songo, em Outubro do ano passado. A Feira do Livro do Songo é uma realização anual do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP), desde 2012, com patrocínio exclusivo da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB). Na conversa com o Tiago, em que falávamos de livros, leitura e hábitos de leitura, ele narrou a sua experiência sobre um Clube do Livro nascido anos atrás em Lisboa, por iniciativa de amigos, e, posteriormente, em Marbella, na Espanha. Por gostarem de ler e, quando se encontrassem para beber uma cerveja, comentar os livros lidos ou que estivessem a ler, esses amigos resolveram passar a encontrar-se regularmente, uma vez por semana, para lerem em conjunto e, também em conjunto, comentarem as suas leituras. E assim foi e assim passaram a fazer: encontrar-se em diferentes espaços públicos, escolhidos de antemão, ler durante uma hora e, na hora seguinte, um ou dois, as vezes três deles, comentarem o livro que estivessem ou tivessem estado a ler. Assim, passavam a hora seguinte a discutir os assuntos apresentados, trocando ideias. Achei isso interessante.

E o Tiago contou, ainda, que esse grupo de amigos era eclético, em termos profissionais: aí havia cirurgiões, engenheiros disto e daquilo outro, vendedores de tabacarias, garçons, varredores de rua, entre outros. O que lhes unia era esse gosto singular pelos livros, pela leitura seguida da troca de ideias. Achei isso muito interessante. E pensei: “eu poderia inventar algo parecido, em Maputo…”. E foi o que aconteceu.

A conversa com o Tiago decorre um mês após a minha experiência como curador, em Maputo, da Exposição Itinerante A Língua Portuguesa em Nós, organizada pelo Museu da Língua Portuguesa de São Paulo de 15 de Agosto a 14 de Setembro de 2018, entretanto, prorrogada até 30 de Setembro. Depois de escalar a Cidade da Praia, em Cabo-Verde, e Luanda, em Angola, essa exposição, já em Maputo, precisava – como precisou nesses outros lugares – de mediadores locais: espécie de guias da exposição para conduzir e apoiar os visitantes com as explicações ou esclarecimentos necessários.

Como curador, e professor, tinha que recrutar, de preferência entre estudantes, os potenciais mediadores, para passarem por uma formação. E assim foi. Pedi voluntários entre os meus estudantes universitários e pedi a estes que encontrassem outros voluntários noutras turmas, faculdades, noutras escolas. E assim foi. Em pouco tempo conseguimos reunir o número suficiente para cuidar da exposição no Centro Cultural Brasil-Moçambique, durante os quarenta e cinco dias que ela durou. Esse grupo passou, pois, por uma breve formação orientada por Marina Sartori de Toledo, do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo e grande amiga do Clube do Livro.

Pessoalmente, tive o privilégio de dar uma espécie de aula sobre a história da língua portuguesa em Moçambique, desde a chegada dos primeiros navegadores portugueses à Baía de Inhambane, em 1498, passando pelas suas movimentações, de índole comercial, ao longo do Índico, sua fixação na Ilha de Moçambique, em 1507, e penetração no Vale do Zambeze, em 1530, com a consequente fixação no Alto e Baixo Zambeze, Tete inclusive. E também sobre sua expansão ao Sul de Moçambique, como resultante dos acontecimentos que se seguiram à Conferência de Berlim, em 1885, e suas consequências para as regiões ocupadas, ou em vias de ocupação, pelas potências europeias.

Essa espécie de aula, depois de uma abordagem à Independência de Moçambique e à escolha da língua portuguesa como língua oficial, língua do ensino e da mídia, e língua da administração pública em Moçambique, terminou com uma rápida incursão à ideia da formação de uma variante do Português de Moçambique nos dias que correm. Encerrada a exposição, propus aos estudantes-mediadores que fizéssemos um balanço do trabalho desenvolvido, com destaque para o seu envolvimento na exposição. O balanço tardou, mas aconteceu: a 1 de Novembro de 2018.

Nesse balanço, os estudantes, em número de sete – a grande maioria já se havia dispersado, retomadas as suas rotinas –, comigo oito, teceram elogios à experiência tida, porquanto lhes havia permitido adquirir novos conhecimentos, em particular sobre a língua portuguesa, a grande montra da exposição A Língua Portuguesa em Nós. Além de alguns aspectos ligados à organização e gestão de exposições de um modo geral. Tinham aprendido muito, conforme disseram, e gostariam de inventar algo para continuar a usufruir desse tipo de aprendizagens, paralelas à repetitiva rotina das aulas na universidade. E avançaram propostas: ler nas escolas, para crianças – que tinham sido um público especial, bastante interactivo, durante as visitas à exposição –; esboçar projectos de publicações de uma espécie de cadernos literários universitários; entre outras propostas. Olhei para eles. Nesse preciso instante, como um tremendo relâmpago, perpassou pelo meu imaginário, e bem clara, a conversa com o Tiago Milheiro, no Songo. Então perguntei-lhes: e se criássemos um Clube do Livro?

Fez-se um silêncio. Pesado. Olharam para mim. E perguntaram: o que é um Clube do Livro, Professor? E eu tentei explicar, tomando como base aquela conversa do Songo com o Tiago. Meio dúbios, primeiro; mas bem convictos, depois, concordaram: vamos criar o Clube do Livro! E assim nasceu o Clube do Livro de Maputo. Hoje – ousamos sublinhar – Clube do Livro de Moçambique.

Objectivos e Procedimentos

Ao criarmos o Clube do Livro, concordamos e decidimos que o objectivo principal seria ler em conjunto, regularmente, e trocar impressões sobre as nossas leituras. Ler livros!

Ler em conjunto porque comungamos esse gosto de ler livros e trocar ideias sobre essas leituras. Sejam eles livros de poesia ou romances. Contos ou novelas. De textos dramáticos ou de outro tipo, como os académicos. Textos didácticos, por exemplo. Desse modo, iríamos usufruir desse prazer conjuntamente. Por isso mesmo, também concordamos e definimos que passaríamos a ler semanalmente, todas as sextas-feiras, o que não tem sido fácil: nem todos conseguem se juntar à malta – como nos tratamos carinhosamente – às sextas-feiras. Mas também, como bem o afirma uma velha máxima, não é possível agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo. Como tal, e apesar dos inúmeros desencontros e reclamações, passamos e continuamos a nos encontrarmos às sextas-feiras. Mais adiante, todavia, introduzimos mais dois dias de encontros: às quartas-feiras, no Campus Principal da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), e no último sábado de cada mês – como corolário do que definimos como Leitura do Mês –, ambos para acomodar todos aqueles que não têm disponibilidade às sextas. Tem resultado, ainda que prevaleçam reclamações contra as sextas-feiras que, pese embora, as mantemos.

A Leitura do Mês, tal como o nome sugere, corresponde a uma das modalidades de leitura do Clube, que alterna com as leituras individuais de escolha pessoal. Nessa modalidade, a Coordenação do Clube – por agora, somente em Maputo – escolhe um autor no início de cada mês, cuja obra constitui o foco das leituras de todos e cada um dos membros do Clube, ao longo desse mês. No final, que o Clube faz questão de que seja sempre no último sábado de cada mês, das nove às doze horas – inclusive, por forma a dar oportunidade aos que não conseguem juntar-se à malta nas sextas e nas quartas –, o autor da obra é convidado ao Encontro com o(a) escritor(a) (sub-modalidade vinculada à Leitura do Mês) para conversar com os seus leitores, o Clube, com base nas leituras feitas. Aí desfiam-se comentários, reflexões, análises e, como não poderia deixar de ser, muitas perguntas. Têm sido momentos de diálogos interessantíssimos e de redescoberta, por via da Literatura, das sociedades moçambicanas, suas línguas e culturas, e do mundo em geral. Por essa experiência, já passaram Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane, Rui de Carvalho, Mia Couto, Virgília Ferrão e Rogério Manjate. A título póstumo, o Clube do Livro ainda leu e homenageou, com inúmeras intervenções, Aníbal Aleluia, autor de Mbelele e Outros Contos (1987), O Gajo e os Outros (1993) e Contos do Fantástico (2007). Na ocasião, dada a complexidade do investimento literário de Aleluia, outros autores de língua portuguesa foram convocados, como referências comparativas: José Craveirinha, João Guimarães Rosa, Aquilino Ribeiro, João Cabral de Melo e Neto, entre outros. Sem margem para dúvidas, Aníbal Aleluia é um dos maiores ficcionistas moçambicanos.

Na criação do Clube também concordamos e definimos os espaços públicos como locais preferenciais para as nossas leituras. Jardins públicos, designadamente. Que é para sermos vistos, para nos expormos ao público, por forma a atrair outras e mais pessoas para o Clube do Livro: aquelas que gostam de ler e que podem sentir-se atraídas pela ideia de se juntar a nós e ler em grupo; mas também aquelas outras que, não sabendo que gostam de ler – ou que possam vir a gostar –, pudessem também sentir-se atraídas por essa ideia e juntar-se a nós, nem que fosse apenas para experimentar a sensação de ler em público, ao ar livre, e depois trocar ideias sobre as coisas lidas.

Entendíamos, dessa óptica, que poderiamos, primeiro, disseminar a prática da leitura através da sua mera exposição e, desse modo, torná-la num hábito entre nós moçambicanos. Um hábito extremamente necessário e saudável, como é sobejamente sabido. Disseminando-a, tornando-a num hábito, poderiamos, por essa via, contribuir, paulatina e progressivamente, para a redução dos elevados índices de iliteracia que enfermam o país e, desde logo, contribuir também no combate e redução da baixa qualidade de ensino, bastante assustadora hoje em dia. Entendemos pois que, desse modo, estaríamos a contribuir na preparação de novos leitores, sobretudo entre jovens e crianças, deixando-os melhor preparados para lidar um pouco mais tranquilamente, e melhor, com a leitura das matérias escolares – sobretudo as mais complexas –: sua captação, absorção, processamento, tradução (ou interpretação) e transmissão.

Por certo, trazer essas contribuições ao de cima e de forma concreta significa, para os Clubes do Livro espalhados pelo país, em última análise e num sentido bem mais amplo, contribuir para o desenvolvimento do país. Concordamos, pois, sobre todos esses aspectos e marcamos a data de 16 de Novembro de 2018, uma sexta-feira, para o primeiro encontro. E também concordamos que esse primeiro encontro deveria ser registado por meio de fotografias e divulgado via “facebook”, o que tem sido feito desde então, por forma a ampliar a exposição. E assim foi e assim tem sido. Hoje, passa um ano.

Perspectivas e Desafios

Se, por um lado, o facto de lermos em espaços públicos permitiu estimular a curiosidade de muitos e, consequentemente, a adesão de mais membros ao Clube, a divulgação desses encontros via “facebook” permitiu, por sua vez, não só atingir outras regiões do país e do mundo, mas também estimular leitores dessas outras regiões a criarem os seus próprios clubes.

Como referido, em Moçambique já contamos com 15 Clubes do Livro que estão em contacto permanente entre si, trocando ideias, livros e outros materiais. Estamos em rede! Produzimos conjuntamente os postais que anunciam cada evento, e não só – com destaque para aqueles feitos por Larissa Santos, brasileira e membro fundador do Clube, residente no Rio de Janeiro –, os textos e imagens fotográficas, e estas, na sua grande maioria, são feitas pelo nosso fotógrafo Tomás Mondlane. Os Clubes e a Larissa não estão aqui, mas estão connosco. Esta celebração do primeiro ano do Clube do Livro está a ser feita por todos os clubes do livro do nosso país. Ademais, o eco das actividades do Clube do Livro chegou a países amigos como Brasil e Portugal, entre outros, que têm interagido connosco ao longo destes doze meses e, alguns deles, aventam a hipótese de intercâmbios vários, tendo como ponto de convergência o Livro e a Leitura.

Sentimo-nos felizes e satisfeitos por ter conseguido criar, dinamizar e manter em alta esta prática da leitura do livro, que gostariamos que se alastrasse cada vez mais pelo país inteiro, e não só, por forma a contribuir no desenvolvimento do país e dos moçambicanos, em especial das nossas crianças. Tal é a nossa principal perspectiva que, sob diversas formas, desejamos que venha a concretizar-se, com a contribuição de todos.

A terminar, e a mero título de curiosidade, devo referir que, ao longo deste ano, no Clube do Livro de Maputo, foram:

Autores mais lidos:

1º) Mia Couto

2º) Paulina Chiziane

3º) Ungulani Ba Ka Khosa

4º) Aldino Muianga

5º) Sir Arthur Conan Doyle

Obras mais lidas:

1º) Mulheres de Cinza, de Mia Couto

2º) Niketche, de Paulina Chiziane; Sherlock Holmes, de Conan Doyle; e O Alegre Canto da Perdiz, também de Paulina Chiziane.

3º) Jesusalém, de Mia Couto, Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa, e Terra Sonâmbula, de Mia Couto.

4º) O Sétimo Juramento, de Pauilina Chiziane.

5º) Morri Para Viver, de Andressa Urach; O Canto dos Escravos, de Paulina Chiziane; Meledina, de Aldino Muianga; e Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, de Mia Couto.

Viva o Livro! Viva a Leitura! Viva a Livraria!

Maputo, 27 de Novembro de 2019.

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