A nossa diáspora no Índico

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                               Leonel Matusse Jr.

HÁ escravos moçambicanos que, na vigência desse comércio ilegalmente, foram vendidos para plantações de cana-de-açúcar na Ilha Reunião. Esse passado hoje clama por atenção através de artistas e agremiações com interesse de preservar a memória.

Ruas estreitas, ladeadas por edifícios de época, são parte do retrato de Saint Pierre, um dos municípios da Ilha Reunião. Nesses espaços, a história transpira e gradativamente sugere um interesse em resgatá-la.

O departamento francês que coloca os galegos numa posição estratégica nas águas do Índico foi destino de escravos, alguns vindos de Moçambique. Mas há também uma presença significativa de chineses, indianos, franceses, entre outros. Nessa mistura, os ritos, hábitos da zona de origem, vão sendo preservados e actualizados.

Maloya, um dos dois principais géneros musicais da Ilha Reunião, é disso a prova. O hábito que é usado pelos descendentes de escravos africanos para manter o contacto com os ancestrais deixados para lá do Índico. Maloya é na actualidade um género musical de bandeira daquele território francês. Conforme viu-se no Mercado de Músicas do Oceano Índico (IOMMA), esse é o produto que pretendem exportar.

A academia desenvolveu algumas pesquisas que resultaram em livros e artigos e podem explicar como decorreu o tráfico de moçambicanos para a Ilha Reunião, sobretudo depois da metade do século XIX.

Este Estado moderno, que se designa Moçambique, a essa altura ainda não era província quando o comércio começou. Havia, de acordo com Diego Zonta, da Universidade de Lisboa, o projecto de administradores e militares portugueses nesse sentido.

Num artigo intitulado “‘Moçambique’ no século XIX: do comércio de escravos ao comércio legítimo”, o historiador relata que o território, que actualmente corresponde ao país, registou um tráfico de escravos na primeira metade do século XIX, as pressões pelo fim do mesmo começaram a surtir efeitos ao longo de boa parte da costa atlântica.

“A demanda pela mão-de-obra escrava nas ilhas produtoras de açúcar do Índico, no referido século, fez crescer o número de caravanas incentivadas principalmente pelos árabes ou pelos africanos islamizados da costa”, lê-se no documento.

A dificuldade de se conseguir escravos, prossegue o investigador, na costa ocidental fez com que os negreiros americanos se voltassem a Moçambique como último recurso para garantir o trabalho escravo nas plantações brasileiras, dos Estados Unidos de América e cubanas, antes do fim definitivo do tráfico atlântico.

Em nota explicativa, Diego Zonta refere que apesar das mudanças legais e as novas nomenclaturas a exploração do homem africano prosseguiria por, praticamente, um século e meio, para além das primeiras leis anti-tráfico aprovadas por países europeus.

“O trabalho forçado nas colônias portuguesas ou os libres engagés (livre contratado) franceses foram outras formas de dar continuidade à exploração desta mão-de-obra. O alvorecer de uma legislação que procurou mediar o fim do tráfico com o início da colonização não foi capaz de romper, definitivamente, com o peso da escravidão no continente”, registou.

Citando a historiadora Isabel Castro Henriques, Diego Zonta refere que a escravidão em Angola, “- e podemos generalizar para Moçambique também -”, somente terminou com a independência em 1975.

“Os ‘serviçais de São Tomé’, por exemplo, continuaram sendo recrutados em Moçambique até aos últimos anos da dominação colonial”, lê-se no artigo intitulado “‘Moçambique’ no século XIX: do comércio de escravos ao comércio legítimo”.

Conforme narra o historiador, a proibição de comercializar com nações estrangeiras foi letra morta para os funcionários da coroa portuguesa, como bem puderam verificar os franceses que, em 1730, já eram assíduos frequentadores da Ilha de Moçambique, Inhambane, Quelimane e, fundamentalmente, das ilhas existentes em Cabo Delgado.

A administração portuguesa, lê-se, “dos portos subalternos participou activamente desse comércio, apesar da proibição de acesso aos portos portugueses, imposta desde Lisboa, às armações estrangeiras, origem de importantes negreiros”.

A justificação, continua, dos funcionários portugueses destacados em Moçambique foi que o comércio com navios estrangeiros, a necessidade de recorrerem aos produtos de consumo, que somente estes podiam fornecer, nomeadamente os franceses.

Para o funcionamento do tráfico clandestino de escravos era fundamental o contacto com as redes ao longo da costa. No norte, as comunidades islâmicas desempenharam esse papel, enquanto que, mais ao sul, as famílias afro-portuguesas, geralmente detentoras dos prazos, garantiram o abastecimento, sempre contando com a benevolência dos governadores.

Acusação de feitiçaria facilitou exportação  

O COMÉRCIO deu-se, como se percebe, ao longo da costa. “O oficial português e ex-governador de Sofala e Tete, António Cândido Pedrosa Gamitto, relatou numa publicação de 1857 que uma quarta parte dos escravos exportados de Moçambique era objecto de algum tipo de acusação de feitiçaria na sua comunidade de origem”, referiu Rita Ferreira.

Diego Zonta interpreta, com efeito, que o carácter punitivo na venda de escravos revela a importância que tiveram os dirigentes tradicionais na sobrevivência do tráfico de escravos e a deturpação que esse comércio fez das práticas culturais no continente.

O historiador esclarece que as pressões militares britânicas, visando conter o tráfico ilegal a partir do norte do Equador, fizeram com que a busca de escravos se deslocasse para o sul de Angola e para a costa do Índico.

“Esse aumento veio de mãos dadas com a expansão das economias de plantação nas ilhas Maurícia, da Reunião e Zanzibar”, lê-se. Este quadro é dos poucos acessíveis em Moçambique a explicar este fenómeno.

Moçambicano é bravo

O MUNDO está a viver uma onda mundial dos afro-descendentes a buscarem os fios que os ligam aos países de origem, Ilha Reunião não é excepção. Ao chegar a Saint Pierre, ouvir o batuque do maloya, já a proximidade revela-se na semelhança ao do tufo, da etnia Emakua.

“A origem da minha família é Inhambane”, conta Mikael Joron, pertencente a uma das associações daquele território com interesse em perceber melhor os traços culturais que os liguem ao passado.

O jovem conta que é por essa razão que tem a bandeira de Moçambique e a fotografia de Samora Machel em vários cantos da sua casa. “Eu digo aos meus filhos que este é um grande herói da nossa terra em África”, relata, eufórico por ter cruzado com a comitiva nacional que para lá deslocou-se a fim de participar do IOMMA e Sakifo.

Conforme explica, algumas famílias ainda contam essa história aos seus descendentes e muitas outras ignoram. “Não podemos deixar essa história para trás”, disse, a defender que há que se partilhar por toda a comunidade negra da Ilha Reunião a narrativa das suas origens.

Até porque, considera, os moçambicanos gozam de uma reputação de bravos guerreiros que não se permitiram curvar à escravatura. Contam as lendas que alguns dos primeiros homens e mulheres negros a exigir a remuneração pelo trabalho foram moçambicanos. “O sistema sabia que os moçambicanos não eram fáceis e que eram muito fortes”, acrescenta.

A escassez de registos escritos coloca alguns desses episódios no lugar de lendas que, entretanto, podem servir de pistas para uma pesquisa mais profunda.

Resgatar através da música 

SUNDRI Feeling, intérprete de jazz, explica que o seu próximo álbum pretende trabalhar essa relação com Moçambique. “Parte dessa história foi silenciada e eu encontro nas artes um caminho para o regate da memória dos escravos”, disse a cantora.

Entende que uma das vias é conectar-se o imaginário para desvendar essas memórias, que a “história oficial oculta”. As histórias familiares, entende, são um caminho para a construção dessa narrativa alternativa que se pretende.

Há já um interesse em recuperar essas memórias silenciadas, de tal forma que já há fundos para apoiar os artistas que tenham interesse em trabalhar essas questões.

É nesse contexto que Sundri, quando orienta “workshops” na Ilha Reunião, convida pessoas adultas conhecedoras da história e dos mitos para contar aos mais novos como as pessoas viviam no passado e despertá-los o orgulho de serem negros.

Indo na mesma linha discursiva que Paulina Chiziane, a cantora de jazz entende que é a dignidade da raça e do continente que se deve devolver ao relatar esses factos. “Nós somos bonitos e uma mistura feliz, mas não podemos negar que há uma disfarçada segregação”.

A busca desse resgate de memória, Sundri virá a Moçambique em Novembro para uma residência artística com o músico da Orquestra Timbila Muzimba, Matxume Zango. “Espero que a experiência possa-me conectar de maneira mais realística e, musicalmente, pretendo integrar a música tradicional moçambicana na minha”, disse, a explicar que entende “as artes como um caminho para salvar o mundo, aproximar através do sentimento”.

Ela é uma mistura, sua mãe descende de vietnamitas e romenos, sendo o pai congolês e indianos. “Sou filha do planeta e a mensagem que eu pretendo transmitir é essa de que é possível o amor verdadeiro e a união”, concluiu.

Há similaridades com o xigubo

JULIENNE Johan, da Associação Bourant e praticante da dança moring, que se parece com a capoeira, esteve em Moçambique à procura de elementos que o conectem aos seus ancestrais.

Nesse percurso, ele busca perceber o seu passado através da música, que alimenta a sua arte marcial e, por sua vez, representa os guerreiros negros que combateram a condição de escravos.

“Temos uma história importante com Moçambique, que remota aos nossos ancestrais e é importante ir lá buscar o que nos conecta a esse movimento”, disse a defender, que a cultura é o caminho.

No país encontrou similaridades durante as pesquisas com o Xigubo, na forma como se toca o batuque. Esteve duas semanas em Maputo e pretende continuar a investigação e trabalhar em intercâmbios.

Soube dessa relação através da história da arte marcial, que executa, que era praticada por negros livres da escravatura e essas pessoas vinham de “Moçambique e Madagáscar”, disse.

Baseado em Saint Luís, observou que pessoas na Ilha Reunião, que é um departamento francês integrado na União Europeia, desconhecem a relação com África, com efeito, as suas aspirações são a Europa.

É da opinião que há que se criar “pontes” com África. Neste momento está a conceber um projecto que irá tentar estabelecer intercâmbios entre pessoas de ambos os territórios. Pensa que estudantes, agentes culturais e artistas podem ser protagonistas desse processo. “Ambos devem saber mais sobre isso”, afirmou.

Revelou que há arquivos que começam a tornar-se públicos sobre estas memórias e as autoridades começam a ter esse interesse em revelar esses episódios da história. “Há fotografias a tornarem-se públicas” e conta que “havia um cemitério que estava junto ao mar, que acabou invadido pelas águas e havia lá escravos”, o que despertou parte da sociedade.

O cemitério não era reconhecido, depois desse acontecimento, em que tiveram de recolher alguns restos mortais, a consciência ficou mais lúcida. “Temos de criar sinergias para resgatar esse legado”, disse.

Nos próximos meses, nesse contexto, a sua irmã virá a Moçambique realizar uma pesquisa, de modo a identificar mais pontos em comum.

É um ponto de partida

IVAN Laranjeira, que dirige a Associação Iverca, agremiação integrada na plataforma Othama, que reúne os festivais Azgo, Mafalala e Kinani, olha para esta preocupação como o início de um diálogo.

As aproximações “são inúmeras, a música, os ritmos do Índico são muito semelhantes, a história que partilhamos em comum”. Esta é, prosseguiu, mais uma prova das trocas e intercâmbios ao longo do oceano que nos banha a costa.

Por outro lado, conforme Ivan Laranjeira, mostra a importância da diáspora, enquanto “uma porta para o mundo”. O posicionamento deste membro da Othama é no sentido de, no contexto da globalização, reforçar-se a consciência sobre a herança cultural da diáspora moçambicana.

A sua preocupação com esta temática se relaciona, directamente, com a questão da documentação, através de pesquisas deste capítulo da história nacional.

Esta viagem à Ilha Reunião para participar do IOMMA e do Sakifo constituiu então o início do processo, que poderá culminar com a estruturação científica dessa relação. “Entretanto, penso ser importante pensar as trocas comerciais e o turismo ainda que seja, exclusivamente, no capítulo das artes e da cultura”, concluiu.

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