O comboio apitou mas sem marrabenta

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Por Leonel Matusse Jr.

NOS últimos anos, a celebração da Batalha de “Gwaza Muthini”, em Marracuene, conta com o “Comboio da Marrabenta”, que parte da Estação de Caminhos de Ferro de Maputo, numa viagem marcada por um concerto musical que só termina quando a composição, transportando os artistas e o público, chegava à vila de Marracuene.

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Entretanto, este ano não foi assim. Não houve música ao longo da viagem de cerca de 30 quilómetros. É isso. Não se ouviu nenhum som de guitarra senão o do apito do próprio comboio, com alguns artistas a bordo que iriam dar início à X edição do Festival Marrabenta.

Esta plataforma vinha permitindo uma maior aproximação entre o artista e o seu público, conquistando aquele novas audiências.

Segundo explica a produção do Festival Marrabenta, tudo ficou a dever-se a problemas técnicos.

Chegados a Marracuene, com a tarde já a meio, a frustração dos convivas cresceu. Só a essa hora começava-se a montar o palco para depois se seguir o concerto. Como se não bastasse, o espetáculo viria a ser acompanhado por sucessivos cortes de energia.

Por conseguinte, só restava beber alguns tragos de “Ukanyi”, que apesar da proibição imposta pela tradição, estava a ser comercializada no local.

Na tarde seguinte, a de sexta-feira, os portões da cerca montada para acolher o Festival da Marrabenta, um parque de estacionamento, localizado junto ao Mercado de Peixe, abriram cerca das 15 horas.

O alinhamento era diversificado. Além dos músicos residentes, Dilon Djindji e Xidmingwana, o Wazimbo, os jovens Mr Bow, Dj Ardiles, Mr Kuker, Lourena Nhate, Matilde Conjo, Melancia de Moz e a banda Orquestra Jambo.

Até por volta das 18. 00 horas, marcada para o início do espetáculo, apenas o pessoal da produção, alguns poucos convidados e uma míngua de espectadores circulava pelo recinto do evento.

Quando o concerto começou às 20 horas, a situação era a mesma, até pouco depois das 22 horas, em que abriram os portões para acesso grátis para um espectáculo, cujo bilhete custava 700 meticais.

Pandza com banda

UMA das críticas que pesa sobre o Pandza, estilo musical popularizado por jovens a partir dos finais da década de 1990, é que, para além de produzir a instrumental em computadores, só fazem actuações em playback.

Como que a desmentir tal teoria, os organizadores da décima edição do Festival da Marrabenta trouxeram estes músicos ao vivo, acompanhados pela banda Stélio Mondlane´s Project.

Na verdade, explicou o director do festival, Paulo David Sitoe, “é só dar oportunidade para que as coisas aconteçam”. Reconheceu que foi necessário um trabalho aturado e, por essa razão, foi construído um estúdio no local, onde os músicos fizeram os acertos.

O objectivo era levar para o mesmo palco músicos como Mr Bow, Lourena Nhate, Mr Kuka, Melancia, Matilde Conjo, Ardiles e Ziqo, que fazem fusão da marrabenta, e outros estilos para actuarem ao lado de artistas da estirpe de Dilon Djindji, Ghorwane, Xidiminguana e o grupo Orquestra Jambo. Estes últimos tidos como parte dos percursores deste ritmo que teve suas origens na periferia da cidade de Maputo, nos anos trinta.

Depois, foi o que se viu. Os jovens músicos acompanhados pela banda Stelio Mondlane´s Project, fizeram uma actuação que conseguiu evidenciar que o Pandza tem origens na marrabenta.

Habitualmente, o festival da marrabenta está associada ao Gwaza Muthini, mas nos últimos tempos tem sido fora de Marracuene. Desta vez foi na Praia da Costa do Sol, depois de em 2015 sido em Xai-Xai”. Mas já aconteceu também no Centro Cultural Franco Moçambicano.

De acordo com o director do festival, a decisão de escolher a Praia da Costa do Sol, teve a ver com o facto se querer transformar este evento num atractivo turístico.

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Melancia de Moz e Dj Ardiles em acção

Fraca adesão

No segundo dia de concertos, sexta-feira, as portas abriram às 15.00 horas, debaixo de um sol escaldante. Até por volta das 21.00 horas, quase a meio da actuação de Xidimingwana, que se fez acompanhar por Ernesto Ximanganine, viola solo, o local do espectáculo ainda estava àsd moscas. Apenas o pessoal da produção, alguns convidados e poucos espectadores.

Xidimingwana, figura residente no festival da Marrabenta, apresentou-se com uma banda constituída que incluía o solista Ximanganine, que se evidenciava pela maneira peculiar com que executava o seu instrumento.

Temas de sucesso como Xikona, Delfina, Djoni foram tocados naquela noite. A meio da actuação, Ximanganine pegou na guitarra de Xidimingwana, para a habitual conversa com o público, na sua língua. Arrancou aplausos dos presentes.

“Esta é uma das marcas que o distingue dos demais guitarristas”, comentava-se na plateia, reconhecendo que este país está repleto de exímios executores deste instrumento musical.

Depois subiu ao palco o agitado e sempre enérgico Dilon Djindji. Embora a idade comece a exigir precauções, a teimosia do músico de Marracuene ainda o permite alguns passos de dança.

O autor do tema “Podina” enchia o palco, correndo de um lado para o outro, como se a sua vida se resumisse aos instantes que está ali, deixando claro que se trata, aquele, de um momento que alimenta a sua alma e, talvez até, o faz esquecer as marcas do tempo.

Gradualmente o parque de estacionamento ia ficando preenchido. Começava a aparecer gente, nessa altura o acesso ao recinto já era gratuito.

Charmoso como sempre, de camisa tropical, calças brancas e um “fedora” de palha na cabeça, Wazimbo pegou no microfone para distribuir pelos ares uma das melhores vozes da marrabenta e da música moçambicana, no geral. Entrou a cantar “Sapateiro”, um dos melhores números do cantor.

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A Marrabenta vive

Já na tarde de domingo, depois de se ter efectuado a limpeza do lixo espalhado na praia da Costa do Sol pelo público e de se ter removido a areia que invadia uma das faixas da avenida Marginal, por volta das 15 horas, as apresentações iniciaram.

Apostados na simbiose entre a marrabenta, o rock, jazz e alguns ritmos latinos, a Banda Kakana inicialmente foi passeando a sua classe, exibindo a performance dos seus instrumentistas.

Ciente de estar a inaugurar uma série de actuações, Yolanda Chicane entrou a cantar “Hoyo Hoyo Masseve”, homenageando desta forma o músico Alexandre Langa (1943-2003), um dos maiores compositores da música popular moçambicana.

A seguir interpretou uma música nova, Josefina, que narra, de forma critica, a estória de uma mulher moçambicana que não se identifica com nenhum dos hábitos culturais do país porque “é fina” e não se pode envolver com “ruralidades”.

Cantou ainda “Elisa Gomara Saia”, da lendária Orquestra Djambo, do bairro da Mafalala, fundada há mais de 50 anos, por Young Issufo. O repertório foi sendo preenchido já com músicas da sua autoria, numa conexão com o público, cantou com ela algumas músicas com “Serenata”.

A autora de “Nweti”, a intérprete Mingas, subiu então para dar seguimento ao concerto, num dia em que a programação tinha sido pensada para ser familiar, o que, entretanto não se notou. A maioria dos presentes eram jovens e adolescentes.

Com o “feeling” que lhe é característico, a “mãe da Maria que baila”, suportada por uma banda que, por exemplo, contava com Carlos Gove (Carlitos), no baixo, e Sheila Jesuíta entre as coristas, mostrou que ainda possui muito caldo para dar.

O público recebeu-a com alguns aplausos, sobretudo quando ela interpretou faixas do seu último álbum Vhumela.

Mas, quando Dj Dilson assumiu a gestão da mesa de som, o público rebentou em divinização da figura, que os fazia dançar ritmos de actualidade.

Como que contagiado pelo sangue juvenil, Stewart Sukuma, que se fez acompanhar pela banda Nkuvu totalmente renovada, fez jus ao adágio popular segundo o qual “quanto mais velho melhor”.

Encantou o público com “Felizminha”, um dos seus maiores “hits” e com “Male”, tema recente do seu CD duplo “Os Sete Pecados” e “Boleia Africana”.

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Terá ficado evidente, que embora o investimento em termos de infraestrutura, o Festival não teve adesão. Paulo Sitóe acredita que tal se deve ao facto de se estar a introduzir uma ideia nova. “Este espaço não era explorado para este fim, então as pessoas temem pelo novo”, considera.

Assumiu-se ainda optimista ao acreditar que não obstante esta edição não ter sido um sucesso de audiência, “no próximo ano as pessoas estarão aqui”.

Questionado sobre o porquê de ter cobrado o acesso num evento que se entende de caris popular respondeu, lembrando que a viagem de ida e volta a Marracuene é gratuita e a questão toda da logística, há que buscar dinheiro em algum lugar.

“Nós temos que criar espaços para todos. Esse é o objectivo do festival”, concluiu.

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