Os motoristas e cobradores desligaram os motores dos chapas na terminal e estão a beber e a jogar cartas. Doze horas e trinta e sete minutos. Conversam em voz alta. Crescem as filas para tomar transporte. Eles nada dizem.

De repente, a alta velocidade chega um Quantum branco. Apavorado, o motorista trava bruscamente, desliga e sai do carro a correr para vomitar.

O cobrador e os passageiros descem com semblantes graves. — O que a Polícia está a fazer no Luís Cabral, nada, juro! — comenta o motorista, a reaproximar-se com uma garrafa de água gelada na mão direita.

— Eu só assustei quando ouvi disparos e não sabia de que lado estavam a vir, brother — Já parado, ainda ofegante, conta aos seus pares. — Só pisei no acelerador, tipo epa, se me acontecer algo, God saberá que eu tentei me salvar. A 160 no conta-quilómetros passei numa daquelas cancelas da portagem com etag, caminho só era para frente. Vim assim do Fomento, a esticar. Está trémulo, os joelhos cedem, não se aguenta em pé. Dão-lhe uma cadeira plástica para se sentar.

O cobrador, depois de entregar uma Coca-Cola a garrafa de vidro, conta: — Vi um puto na paragem da Maquinaque que queria apanhar chapa a cair com bala. Ele levantou o braço quando nos viu a sinalizar, na paragem. A sua traz havia um beco que vai dar numa rua interior do bairro, acessível pela auto-estrada Witbank. De lá do fundo uma malta levantava cartazes e gritava povo no poder.

Do Mahindra que vinha atrás de nós, um gajo sacou uma AKM e descarregou sobre o puto que queria apanhar chapa. E, epa, não tínhamos como parar para ajudar, estás a ver? — concluiu o homenzinho, magro, camiseta XL, pele clara, pálida. — De repente ainda vos juntavam e vos chamavam de manifestantes — comentou o fiscal municipal da rota, que o ouvia atentamente.

Matias ouve essas conversas indiferente. Está lixado porque não vislumbra onde pode estar a carteira, justamente hoje. Logo eu, diz a si mesmo, sempre organizado.

As perguntas não cessam entre as suas vozes: — Será que eles adiaram porque não atendi logo a chamada? Será? Tenho de ir lá explicar-lhes o que aconteceu.

Caminha em direcção ao ponto que carrega a sua rota, Museu ou Baixa. É notável que está incapaz de perceber a tensão que se vive na praça.

Uns quatro passos para a sua esquerda, duas senhoras em prantos, num dos alpendres de betão que esquivam o sol ignorante sobre os dias que ilumina:

— Era um menino, um menino. Eu só vi o menino a cair — relata um passageiro — aquilo atravessou-lhe a garganta.

A meio passo das senhoras, na sua direita, relativamente atrás de Matias, o moço de porte atlético, a vestir um terno azul, camisa branca e gravata vermelha, apoiou-se no ombro doutro jovem ao seu lado.

— De certeza que foi morte súbita, aquela cena — especula o seu companheiro. — Bro, não sabes, me arrependo de ter levantado a cabeça — desabafa entre soluços e lágrimas, o jovem de uns 37 anos, talvez. — Queria saber onde estavam. Os vídeos que chegavam pelo WhatsApp eram horríveis.

No Facebook, no Tik Tok, WhatsApp e Telegram as pessoas recebem notícias e vídeos das cidades em chamas, pneus nas estradas. Pedras contra os carros da polícia. Matias, ao dar-se conta do que se está a passar, fica like what? Eu estive na cidade ainda há pouco e não vi nada disso.

— Para o meu Boss entender que não estou a mentir sobre falta de chapas…Desculpem, posso vos filmar? Tenho de mostrar ao meu Boss que estou na paragem — pediu uma moça ao perceber que já não irá ao trabalho hoje. — Podes sim — responderam às pessoas. Outras se afastaram.

— Foda-se! Agora é que nunca mais apanho a minha carteira — diz para si próprio o Matias.Nem haverá mais entrevista, caralho!

Dá costas à terminal e segue, derrotado, para casa. — Assim, se eu ligar a contar o que aconteceu, irão pensar que é tudo invenção minha. — Acende o cigarro. Para na sombra. Saca o mobile do bolso, que lhe é arrancado num instante…zás!